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domingo, 18 de novembro de 2012
sexta-feira, 25 de maio de 2012
terça-feira, 22 de maio de 2012
Tudo muito simples
É bom lembrar que o problema do mal não prova que deus não existe, apenas que deus não pode ser ao mesmo tempo bondoso e onipotente. Ainda resta a possibilidade de existirem deuses malevolentes, ou apenas indiferentes.
Porém, ainda assim o problema do mal elimina os deuses da grande maioria da população. Para eles, o problema é insolúvel.
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quarta-feira, 18 de abril de 2012
Por que ateus tem tanta raiva?
Dois vídeos muito instrutivos, legendados em português, que explicam muito da "raiva" que os ateus sentem pelas religiões.
Recomendado a todos os crentes.
Parte 1:
Parte 2:
Recomendado a todos os crentes.
Parte 1:
Parte 2:
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42 meninos mortos por duas ursas. Mais um milagre!
Essa é uma daquelas histórias que não vemos sendo contadas nos cultos e missas domingo de manhã. E não é para menos, pois muitos crentes sequer ouviram essa passagem um dia, e os que a conhecem preferem ficar quietos de vergonha.
Muitos ateus já devem conhecer essa história. Trata-se da passagem em que Eliseu, o profeta sucessor de Elias, que havia recém "subido aos céus em um redemoinho" (aham, senta lá, Cláudia), estava indo em direção a Betel, quando no caminho encontrou algumas crianças, as quais começaram a caçoar dele por causa de sua careca. Eliseu, testando seus novos superpoderes de profeta, não aceitou o bullying muito bem, e amaldiçoou as crianças "em nome do SENHOR", e eis que do mato saíram duas ursas, e desmembraram 42 daqueles meninos..
Certamente uma história linda para contar aos seus filhos!
2 Reis 2:23 Então [Eliseu] subiu dali a Betel; e, subindo ele pelo caminho, uns meninos saíram da cidade, e zombavam dele, e diziam-lhe: Sobe, calvo; sobe, calvo!
2 Reis 2:24 E, virando-se ele para trás, os viu, e os amaldiçoou no nome do SENHOR; então duas ursas saíram do bosque, e despedaçaram quarenta e dois daqueles meninos.
2 Reis 2:25 E dali foi para o monte Carmelo de onde voltou para Samaria.
Tem muita coisa que pode ser dita a respeito dessa história ridícula e grotesca.
A primeira, a mais óbvia, é a do caráter desse "homem de deus", que se enfurece por tão pouca coisa, e joga sua ira em crianças que sequer conheciam as consequências dos seus atos. E por causa do quê? De falta de cabelo? Um homem santo não deveria estar acima dessas coisas terrenas? E por que não dar apenas um susto nas crianças? Tinha que "despedaçá-las", como diz a bíblia?
Interessante, inclusive após o incidente, Eliseu não parece ter dado muita bola para o cenário de pedaços de crianças espalhados em meio a um banho de sangue. Apenas seguiu seu caminho tranquilamente para Betel!
Não se sabe ao certo se foi Eliseu quem enviou as ursas, ou se foi deus. A bíblia apenas diz que ele amaldiçoou as crianças. Mas isso não muda nada; se foi Eliseu, foi com a permissão de deus. Se foi deus, então a pequenez de espírito e falta de caráter é do próprio deus, por "se doer" por uma simples gozação de crianças.
Já houve crentes que disseram em suas tentativas de explicação que não se travam de crianças, mas de "anões". Desculpa esfarrapada, pois as palavras hebraicas usadas são "qatan na`ar", que significa "pequenos garotos", com idade variando entre infância e adolescência. E mesmo que fossem anões, faria alguma diferença? A passagem seria menos cruel ou repugnante?
Outra coisa que deve-se notar é como é que duas ursas conseguiriam apanhar 42 crianças. A não ser que elas fossem ursas ninjas sayajin with lasers from hell, é muito improvável que elas conseguissem realizar esse feito.
O fato é que esse número - claramente exagerado - não tem nada a ver com a realidade, pois o 42 é um número cabalístico especial para os israelitas antigos. A explicação é muito simples. Deus gosta do número 7, que significa a perfeição, plenitude, fim, acabamento. Na verdade essa preferência não veio de deus, e sim de influência pagã, a partir dos 7 corpos celestiais errantes que eram conhecidos na época, e eram considerados deuses: o Sol, a Lua, e os 5 planetas visíveis a olho nu, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. O politeísmo foi abandonado pelos israelitas, mas o número 7 continuou especial.
O número 6 então é considerado imperfeição, falta, defeito, e geralmente associado com o homem e com a maldade. 42 é o resultado de 6x7, ou seja, a perfeita maldade, representando o caráter daqueles meninos. Mostra o quão maus eram esses meninos, e como mereciam ser despedaçados por ursas selvagens (42 aparece em outras partes da bíblia, sempre associado de alguma forma com a maldade, em Juízes 12:5-6, 2 Reis 10:14, e Apocalipse 11:2 e 13:5).
Ou seja, é apenas uma história inventada, com a intenção de apresentar algum tipo de moral para as pessoas. Qual é essa moral? Oras, é essa aqui:
Muitos ateus já devem conhecer essa história. Trata-se da passagem em que Eliseu, o profeta sucessor de Elias, que havia recém "subido aos céus em um redemoinho" (aham, senta lá, Cláudia), estava indo em direção a Betel, quando no caminho encontrou algumas crianças, as quais começaram a caçoar dele por causa de sua careca. Eliseu, testando seus novos superpoderes de profeta, não aceitou o bullying muito bem, e amaldiçoou as crianças "em nome do SENHOR", e eis que do mato saíram duas ursas, e desmembraram 42 daqueles meninos..Certamente uma história linda para contar aos seus filhos!
2 Reis 2:23 Então [Eliseu] subiu dali a Betel; e, subindo ele pelo caminho, uns meninos saíram da cidade, e zombavam dele, e diziam-lhe: Sobe, calvo; sobe, calvo!
2 Reis 2:24 E, virando-se ele para trás, os viu, e os amaldiçoou no nome do SENHOR; então duas ursas saíram do bosque, e despedaçaram quarenta e dois daqueles meninos.
2 Reis 2:25 E dali foi para o monte Carmelo de onde voltou para Samaria.
Tem muita coisa que pode ser dita a respeito dessa história ridícula e grotesca.
A primeira, a mais óbvia, é a do caráter desse "homem de deus", que se enfurece por tão pouca coisa, e joga sua ira em crianças que sequer conheciam as consequências dos seus atos. E por causa do quê? De falta de cabelo? Um homem santo não deveria estar acima dessas coisas terrenas? E por que não dar apenas um susto nas crianças? Tinha que "despedaçá-las", como diz a bíblia?
Interessante, inclusive após o incidente, Eliseu não parece ter dado muita bola para o cenário de pedaços de crianças espalhados em meio a um banho de sangue. Apenas seguiu seu caminho tranquilamente para Betel!
Não se sabe ao certo se foi Eliseu quem enviou as ursas, ou se foi deus. A bíblia apenas diz que ele amaldiçoou as crianças. Mas isso não muda nada; se foi Eliseu, foi com a permissão de deus. Se foi deus, então a pequenez de espírito e falta de caráter é do próprio deus, por "se doer" por uma simples gozação de crianças.
Já houve crentes que disseram em suas tentativas de explicação que não se travam de crianças, mas de "anões". Desculpa esfarrapada, pois as palavras hebraicas usadas são "qatan na`ar", que significa "pequenos garotos", com idade variando entre infância e adolescência. E mesmo que fossem anões, faria alguma diferença? A passagem seria menos cruel ou repugnante?
Outra coisa que deve-se notar é como é que duas ursas conseguiriam apanhar 42 crianças. A não ser que elas fossem ursas ninjas sayajin with lasers from hell, é muito improvável que elas conseguissem realizar esse feito.
O fato é que esse número - claramente exagerado - não tem nada a ver com a realidade, pois o 42 é um número cabalístico especial para os israelitas antigos. A explicação é muito simples. Deus gosta do número 7, que significa a perfeição, plenitude, fim, acabamento. Na verdade essa preferência não veio de deus, e sim de influência pagã, a partir dos 7 corpos celestiais errantes que eram conhecidos na época, e eram considerados deuses: o Sol, a Lua, e os 5 planetas visíveis a olho nu, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. O politeísmo foi abandonado pelos israelitas, mas o número 7 continuou especial.
O número 6 então é considerado imperfeição, falta, defeito, e geralmente associado com o homem e com a maldade. 42 é o resultado de 6x7, ou seja, a perfeita maldade, representando o caráter daqueles meninos. Mostra o quão maus eram esses meninos, e como mereciam ser despedaçados por ursas selvagens (42 aparece em outras partes da bíblia, sempre associado de alguma forma com a maldade, em Juízes 12:5-6, 2 Reis 10:14, e Apocalipse 11:2 e 13:5).
Ou seja, é apenas uma história inventada, com a intenção de apresentar algum tipo de moral para as pessoas. Qual é essa moral? Oras, é essa aqui:
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sábado, 14 de abril de 2012
Adulterações das Escrituras por Motivos Teológicos - III
Continuaremos com o nosso estudo sobre as adulterações nas escrituras por motivações teológicas. Se você ainda não viu, pode acompanhar a introdução na parte I e as adulterações anti-docentistas na parte II.
Os cristãos gostam de pensar que o cristianismo primitivo era uma unidade coesa de idéias, com apenas alguns problemas localizados os quais podiam ser tratados com algumas simples cartas e admoestações dos apóstolos. A verdade é que era bem o oposto disso. Haviam várias formas de cristianismo completamente conflitantes entre si, cada um alegando ser "o" verdadeiro cristianismo, e cada um com a sua própria literatura, muitas vezes com passagens forjadas ou falsificados em sua totalidade. Essa era uma forma de tentar persuadir os fiéis a se manterem na "religião correta", e se afastar das "heresias", deixando bem claro que por religião correta é a "minha crença", e heresia é a sua.
Veremos agora um outro grupo de cristãos, que se encontravam no lado diametralmente oposto aos docentistas.
Os cristãos adocionistas
Um grande número de grupos cristãos no segundo e terceiros séculos da era comum adotavam uma visão "adocionista" de Cristo. Essa visão é chamada assim porque os seus fiéis acreditavam que Jesus não era divino mas 100% humano de carne e osso, ao qual deus havia "adotado" na hora do seu batismo.
Um grupo específico de cristãos judeus que ganhou notoriedade na época eram os chamados ebionitas. Não se sabe ao certo por que receberam esse nome, mas acredita-se que pode ter sido originado da palavra grega "ebyon", que significa pobre.
Para pertencer a esse grupo, o fiel teria que ser como Jesus, ou seja, judeu. Teria que ser circuncidado se fosse homem, e seguir todas as 613 leis de Moisés. Certamente que não acreditavam na trindade, já que Jesus era um ser humano comum, nascido de uma mulher comum (nascimento não-virginal), e viveu em uma lar judeu comum.
Para eles, Jesus era apenas um rigoroso seguidor da lei mosaica, e, por causa de ser extremamente justo aos olhos de deus, foi adotado por ele durante o seu batismo, onde se ouviu uma voz dizendo que ele era o seu filho unigênito. Desse momento em diante Jesus seguiu a missão dada por deus, que era morrer na cruz como um sacrifício pela humanidade. Depois, deus o ressuscitou, e o elevou até os céus, onde está aguardando retornar para julgar as nações.
Assim, de acordo com o ebionitas, Jesus não pré-existiu, não nasceu de uma virgem, não era divino em si. Ele era apenas um ser humano especial, escolhido por deus para ser seu filho adotivo, e executar uma missão aqui na Terra.
Adulterações anti-adocionistas das escrituras
Em resposta a essas alegações, cristãos proto-ortodoxos insistiam que Jesus não era um mero ser humano, mas realmente divino, o próprio deus encarnado. Ele nasceu sim de uma virgem, e era superior aos homens porque ele era diferente por natureza, e no seu batismo deus não fez dele o seu filho adotivo, mas apenas afirmou que ele era e sempre foi de fato seu filho unigênito, desde o início dos tempos.
Algumas vezes, alegações não eram suficientes, e os cristãos proto-ortodoxos se valiam de adulterações das escrituras para validar ou enfatizar seus pontos de vista.
Quem se manifestou em carne?
Já foi discutido aqui uma passagem em que um erro de copista em I Timóteo 3:16 pode ter implicações teológicas sérias por mudar drasticamente a interpretação da passagem, alterando a palavra omicron-sigma (ΟΣ), que significa "aquele", por teta-sigma (ΘΣ) com um traço em cima, uma abreviatura para a palavra "Deus".
1 Timóteo 3:16 Evidentemente, grande é o mistério da piedade: Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em espírito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória. (Versão João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada)
1 Timóteo 3:16 E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória. (Versão João Ferreira de Almeida Corrigida e Revisada, Fiel)
Agora nós já podemos entender o por quê. Provavelmente o escriba achou uma boa oportunidade de combater idéias adocionistas, fortalecendo a idéia de que Jesus era de fato Deus manifestado em carne.
Pai? Que pai?
Outra modificação anti-adocionista aconteceu em Lucas, na parte José e Maria levam o bebê Jesus ao tempo e Simeão o abençoa, e é dito que "seu pai e sua mãe estavam maravilhados do que se dizia dele". Peraí, seu pai? Como é que o texto diz que José é o pai de Jesus se ele nasceu de uma virgem? Assim, não é surpresa que em muitos manuscritos os escribas alteraram o texto para eliminar uma possível interpretação adocionista, alterando para "José e sua mãe", como podemos ver aqui:
Lucas 2:33 E estavam o pai e a mãe do menino admirados do que dele se dizia. (Versão João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada)
Lucas 2:33 Enquanto isso, seu pai e sua mãe se admiravam das coisas que deles se diziam. (Versão João Ferreira de Almeida Atualizada)
Lucas 2:33 E José, e sua mãe, se maravilharam das coisas que dele se diziam. (Versão João Ferreira de Almeida Corrigida e Revisada, Fiel)
Lucas 2:33 And Joseph and his mother marvelled at those things which were spoken of him. (Versão King James)
Lucas 2:43 Terminados os dias da festa, ao regressarem, permaneceu o menino Jesus em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem. (Versão João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada)
Lucas 2:43 e, terminados aqueles dias, ao regressarem, ficou o menino Jesus em Jerusalém sem o saberem seus pais; (Versão João Ferreira de Almeida Atualizada)
Lucas 2:43 E, regressando eles, terminados aqueles dias, ficou o menino Jesus em Jerusalém, e não o soube José, nem sua mãe. (Versão João Ferreira de Almeida Corrigida e Revisada, Fiel)
Lucas 2:43 And when they had fulfilled the days, as they returned, the child Jesus tarried behind in Jerusalem; and Joseph and his mother knew not of it. (Versão King James)
João 1:18 Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou. (Versão João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada)
João 1:18 Ninguém jamais viu a Deus. O Deus unigênito, que está no seio do Pai, esse o deu a conhecer. (Versão João Ferreira de Almeida Atualizada)
João 1:18 Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou. (Versão João Ferreira de Almeida Corrigida e Revisada, Fiel)
João 1:18 No man hath seen God at any time, the only begotten Son, which is in the bosom of the Father, he hath declared him. (Versão King James)
Os cristãos gostam de pensar que o cristianismo primitivo era uma unidade coesa de idéias, com apenas alguns problemas localizados os quais podiam ser tratados com algumas simples cartas e admoestações dos apóstolos. A verdade é que era bem o oposto disso. Haviam várias formas de cristianismo completamente conflitantes entre si, cada um alegando ser "o" verdadeiro cristianismo, e cada um com a sua própria literatura, muitas vezes com passagens forjadas ou falsificados em sua totalidade. Essa era uma forma de tentar persuadir os fiéis a se manterem na "religião correta", e se afastar das "heresias", deixando bem claro que por religião correta é a "minha crença", e heresia é a sua.
Veremos agora um outro grupo de cristãos, que se encontravam no lado diametralmente oposto aos docentistas.
Os cristãos adocionistas
Um grande número de grupos cristãos no segundo e terceiros séculos da era comum adotavam uma visão "adocionista" de Cristo. Essa visão é chamada assim porque os seus fiéis acreditavam que Jesus não era divino mas 100% humano de carne e osso, ao qual deus havia "adotado" na hora do seu batismo.
Um grupo específico de cristãos judeus que ganhou notoriedade na época eram os chamados ebionitas. Não se sabe ao certo por que receberam esse nome, mas acredita-se que pode ter sido originado da palavra grega "ebyon", que significa pobre.
Para pertencer a esse grupo, o fiel teria que ser como Jesus, ou seja, judeu. Teria que ser circuncidado se fosse homem, e seguir todas as 613 leis de Moisés. Certamente que não acreditavam na trindade, já que Jesus era um ser humano comum, nascido de uma mulher comum (nascimento não-virginal), e viveu em uma lar judeu comum.
Para eles, Jesus era apenas um rigoroso seguidor da lei mosaica, e, por causa de ser extremamente justo aos olhos de deus, foi adotado por ele durante o seu batismo, onde se ouviu uma voz dizendo que ele era o seu filho unigênito. Desse momento em diante Jesus seguiu a missão dada por deus, que era morrer na cruz como um sacrifício pela humanidade. Depois, deus o ressuscitou, e o elevou até os céus, onde está aguardando retornar para julgar as nações.
Assim, de acordo com o ebionitas, Jesus não pré-existiu, não nasceu de uma virgem, não era divino em si. Ele era apenas um ser humano especial, escolhido por deus para ser seu filho adotivo, e executar uma missão aqui na Terra.
Adulterações anti-adocionistas das escrituras
Em resposta a essas alegações, cristãos proto-ortodoxos insistiam que Jesus não era um mero ser humano, mas realmente divino, o próprio deus encarnado. Ele nasceu sim de uma virgem, e era superior aos homens porque ele era diferente por natureza, e no seu batismo deus não fez dele o seu filho adotivo, mas apenas afirmou que ele era e sempre foi de fato seu filho unigênito, desde o início dos tempos.
Algumas vezes, alegações não eram suficientes, e os cristãos proto-ortodoxos se valiam de adulterações das escrituras para validar ou enfatizar seus pontos de vista.
Quem se manifestou em carne?
Já foi discutido aqui uma passagem em que um erro de copista em I Timóteo 3:16 pode ter implicações teológicas sérias por mudar drasticamente a interpretação da passagem, alterando a palavra omicron-sigma (ΟΣ), que significa "aquele", por teta-sigma (ΘΣ) com um traço em cima, uma abreviatura para a palavra "Deus".
1 Timóteo 3:16 Evidentemente, grande é o mistério da piedade: Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em espírito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória. (Versão João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada)
1 Timóteo 3:16 E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória. (Versão João Ferreira de Almeida Corrigida e Revisada, Fiel)
Agora nós já podemos entender o por quê. Provavelmente o escriba achou uma boa oportunidade de combater idéias adocionistas, fortalecendo a idéia de que Jesus era de fato Deus manifestado em carne.
Pai? Que pai?
Outra modificação anti-adocionista aconteceu em Lucas, na parte José e Maria levam o bebê Jesus ao tempo e Simeão o abençoa, e é dito que "seu pai e sua mãe estavam maravilhados do que se dizia dele". Peraí, seu pai? Como é que o texto diz que José é o pai de Jesus se ele nasceu de uma virgem? Assim, não é surpresa que em muitos manuscritos os escribas alteraram o texto para eliminar uma possível interpretação adocionista, alterando para "José e sua mãe", como podemos ver aqui:
Lucas 2:33 Enquanto isso, seu pai e sua mãe se admiravam das coisas que deles se diziam. (Versão João Ferreira de Almeida Atualizada)
Lucas 2:33 E José, e sua mãe, se maravilharam das coisas que dele se diziam. (Versão João Ferreira de Almeida Corrigida e Revisada, Fiel)
Lucas 2:33 And Joseph and his mother marvelled at those things which were spoken of him. (Versão King James)
Um fenômeno similar ocorreu em Lucas 2:43, quando José, Maria e Jesus vão a um festival em Jerusalém, e ao voltarem, é dito que Jesus ficou para trás sem que seus pais soubessem. Mas José não era de fato o pai de Jesus, então vários escribas "corrigiram" isso, alterando o texto para "José e sua mãe", como podemos ver ainda em algumas versões da bíblia.
Lucas 2:43 e, terminados aqueles dias, ao regressarem, ficou o menino Jesus em Jerusalém sem o saberem seus pais; (Versão João Ferreira de Almeida Atualizada)
Lucas 2:43 E, regressando eles, terminados aqueles dias, ficou o menino Jesus em Jerusalém, e não o soube José, nem sua mãe. (Versão João Ferreira de Almeida Corrigida e Revisada, Fiel)
Lucas 2:43 And when they had fulfilled the days, as they returned, the child Jesus tarried behind in Jerusalem; and Joseph and his mother knew not of it. (Versão King James)
Essas alterações não foram acidentais, elas tinham um propósito, que era o de evitar uma "interpretação errada" por parte de cristãos adocionistas.
"Tu és meu filho, e hoje te gerei"
Uma das mais intrigantes variações anti-adocionistas nos manuscritos ocorre justamente na hora do batismo de Jesus, onde os adocionistas insistem que foi nessa hora em que deus o escolheu como filho adotivo.
No evangelho de Lucas e de Marcos, quando Jesus é batizado, os céus se abrem, o espírito santo desce na forma de uma pomba, e escuta-se uma voz nos céus. Na maioria dos manuscritos, a voz em Lucas diz a mesma coisa que em Marcos, "tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo". No entanto, em um antigo manuscrito grego e em vários manuscritos latinos, em Lucas é dito algo bem diferente: "tu és meu Filho, e hoje eu te gerei".
Hoje eu te gerei! Não é extremamente sugestivo que Jesus se tornou o Filho de Deus na hora do seu batismo?
Mas então, qual das duas formas é a original? A vasta maioria dos manuscritos gregos traz a forma tradicional,
"tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo", então podemos ser tentados a achar que essa é a forma correta e a outra a alteração. O problema é que a outra versão, "tu és meu Filho, e hoje eu te gerei", é a mais citada entre os pais da igreja no período anterior ao da produção da maioria dos manuscritos que temos hoje. É citada no segundo e terceiro séculos em toda a parte em Roma, Alexandria, norte da África, Palestina, Gales, Espanha. Em quase todas instâncias, é a forma
"tu és meu Filho, e hoje eu te gerei" que é usada!
E não é o fato de haver mais manuscritos que automaticamente torna a passagem mais confiável. Como a passagem em Lucas destoa da de Marcos, é possível que os escribas tentassem harmonizá-las, eliminando a contradição, ao mesmo tempo em que combatem uma possível interpretação adocionista.
Único Filho ou único deus?
Uma última alteração anti-adocionista que veremos aqui pode ser encontrada no primeiro capítulo do evangelho de João. O livro começa com o famoso prólogo: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus".
Ao chegar no versículo 18, duas variantes são encontradas:
João 1:18 Ninguém jamais viu a Deus. O Deus unigênito, que está no seio do Pai, esse o deu a conhecer. (Versão João Ferreira de Almeida Atualizada)
João 1:18 Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou. (Versão João Ferreira de Almeida Corrigida e Revisada, Fiel)
João 1:18 No man hath seen God at any time, the only begotten Son, which is in the bosom of the Father, he hath declared him. (Versão King James)
Qual é a correta, o "Deus unigênito", ou o "Filho unigênito"? Os melhores e mais antigos manuscritos Alexandrinos indicam que é a primeira, "Deus unigênito". Mas é interessante que essa forma raramente é encontrada em manuscritos não-alexandrinos. É possível que essa variante tenha se tornado popular apenas em Alexandria por algum escriba com idéias anti-adocionistas. Isso explicaria por que a vasta maioria dos manuscritos encontrados em todos os outros lugares não usa "Deus unigênito", mas sim "Filho unigênito".
Além disso, João chama Jesus de "Filho unigênito" em vários outros lugares, mas nunca se refere a "Deus unigênito". É até difícil entender o que isso significa ao certo. Por "unigênito" entende-se filho único, e chamar um Deus de unigênito significa que esse Deus teve um pai, e portanto não pode haver um único Deus.
É mais provável, portanto, que essa passagem foi alterada por algum escriba alexandrino que não estava confortável com o status dado a Jesus, e decidiu mudar isso. Assim, Jesus não é um mero Filho unigênito, e sim o próprio Deus unigênito, provavelmente para usar contra cristãos adocionistas.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Somente deus faz sinais e maravilhas?
Sim:
Não, Satã também sabe fazer maravilhas:
| Salmos,136:3 | Dêem graças ao Senhor dos senhores. O seu amor dura para sempre! |
| Salmos,136:4 | Ao único que faz grandes maravilhas, O seu amor dura para sempre! |
Não, Satã também sabe fazer maravilhas:
| 2Tessalonicenses,2:9 | A vinda desse perverso é segundo a ação de Satanás, com todo o poder, com sinais e com maravilhas enganadoras. |
P.S.: Com essa, atingimos a impressionante marca de 200 contradições catalogadas! Considerando que uma bíblia em média tem umas 400 páginas, e que cada contradição precisa de no mínimo duas passagens (mas normalmente há mais), podemos dizer com segurança que a bíblia tem pelo menos um trecho contraditório por página! :D
terça-feira, 3 de abril de 2012
Adulterações das Escrituras por Motivos Teológicos - II
Cristãos docentistas
Como vimos brevemente na parte anterior, Marcion tinha uma visão muito peculiar de cristianismo. Ele chegou à conclusão – muito coerente, por sinal – de que o deus do Antigo Testamento, cheio de ira e vingança, não poderia ser o mesmo deus do Novo; tratam-se de dois deuses diferentes, com o deus de Israel sendo um deus menor, inferior. Ele criou esse mundo, escolheu Israel como seu povo, exigiu sacrifícios e obrigou a manter todo o rigor da lei
mosaica para perdoar os pegados. Dessa forma, o deus de Jesus, do perdão e do amor, viu a situação dos humanos, e enviou Jesus para a nossa salvação.
Como Jesus não foi criado por esse deus inferior, que criou esse mundo, ele não poderia ter um corpo material. Ele não poderia ter nascido, nem poderia sentir fome, nem sede, nem dor. Ele também não poderia morrer de verdade. Ele apenas aparentava ser humano. Assim, em um aparente sacrifício, o deus de Israel aceitou sua “morte” como pagamento dos pecados. E assim a humanidade foi salva.
Então Jesus, segundo Marcion, era 100% divino e 0% humano. Os que acreditavam nisso eram chamados “docentistas”. O nome vem do grego DOKEO, que significa “aparentar”, “parecer”. Como ele era deus, não poderia ser um homem, ele apenas aparentava ser.
Infelizmente nenhum dos escritos de Marcion sobreviveu até os dias de hoje, mas sabe-se que ele foi uma grande ameaça aos cristãos “ortodoxos” de sua época (proto-ortodoxo seria o nome mais apropriado). Sabemos disso porque muitos dos pais da igreja escreveram sobre ele, como Irineu e Tertuliano, citando-o palavra por palavra, com as devidas refutações. Tertuliano chegou a escrever um livro de cinco volumes chamado “Against Marcion” (Contra Marcion).
Cristãos proto-ortodoxos criticavam duramente as idéias de Marcion, pois se Jesus não fosse plenamente humano, então não poderia sofrer, não teria seu sangue derramando, e seu sacrifício humano seria inútil. Sua “morte aparente” não serviria para nada. Não, ele nasceu de verdade, cresceu de verdade, sofreu de verdade, morreu, ressuscitou, e está sentado no céu aguardando voltar, fisicamente, em toda sua glória.
No entanto, escrever tratados não era a única maneira que os cristãos proto-ortodoxos tinham para refutar idéias que eles consideravam heresias: eles podiam fazer alterações diretamente nas escrituras.
Adulterações anti-docentistas das escrituras
O debate sobre as idéias docentistas influenciou os escribas que copiavam os livros que eventualmente entraram para o Novo Testamento. Alguém que quisesse minar as idéias docentistas teria que alterar os textos de modo a incluir aspectos humanos a Jesus. Veremos a seguir quatro passagens que são consideradas inserções posteriores, provavelmente por motivações anti-docentistas, pois elas sempre enfatizam que Jesus era real, de carne, osso e sangue. Elas não estão presentes nos manuscritos mais antigos, e sua ausência é difícil de explicar. Não pode ser usada a desculpa de ser homeoteleuto (quando a repetição de palavras com fonética similar pode induzir ao erro). Todas as passagens são do livro de Lucas, que, como vimos, era o único evangelho usado por Marcion.
Jesus suando sangue
A primeira passagem que veremos é aquela onde Jesus se encontra no monte das oliveiras momentos antes de ser preso. Após encorajar os seus discípulos a “orar, para que não entrem em tentação”, ele se afasta, se ajoelha e reza: “Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua”:
| Lucas,22:39 | E, saindo, foi, como de costume, para o monte das Oliveiras; e os discípulos o acompanharam. |
| Lucas,22:40 | Chegando ao lugar escolhido, Jesus lhes disse: Orai, para que não entreis em tentação. |
| Lucas,22:41 | Ele, por sua vez, se afastou, cerca de um tiro de pedra, e, de joelhos, orava, |
| Lucas,22:42 | dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua. |
Em seguida, vem a parte que é considerada pelos estudiosos como uma inserção posterior; ela não está presente em muitos nos melhores e mais antigos manuscritos que possuímos, os Alexandrinos. Algumas bíblias admitem isso usando colchetes e notas de rodapé. Nessa passagem, Jesus é confortado por um anjo, e fica tão angustiado que começa a suar sangue:
| Lucas,22:43 | [Então, lhe apareceu um anjo do céu que o confortava. |
| Lucas,22:44 | E, estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra.] |
Após isso, Jesus se levanta, retorna aos discípulos e os encontra dormindo. Ele repete a primeira instrução e em seguida aparece Judas com a multidão para prendê-lo:
| Lucas,22:45 | Levantando-se da oração, foi ter com os discípulos, e os achou dormindo de tristeza, |
| Lucas,22:46 | e disse-lhes: Por que estais dormindo? Levantai-vos e orai, para que não entreis em tentação. |
| Lucas,22:47 | Falava ele ainda, quando chegou uma multidão; e um dos doze, o chamado Judas, que vinha à frente deles, aproximou-se de Jesus para o beijar. |
Existem outros argumentos que sugerem que os versículos 43 e 44 não pertenciam ao texto original. Por exemplo, o estilo de escrita não se parece com o que Lucas utilizava. Existem palavras ali que não são usadas nenhuma outra vez nem em Lucas nem em Atos dos Apóstolos (ambos os livros são considerados escritos pelo mesmo autor), tais como “agonia”, “suor”, “gotas”.
Outro argumento é que existe nesse episódio uma estrutura lingüística que parece deliberada, chamada de “quiasma”, que ocorre quando a primeira sentença corresponde à última, a segunda corresponde à penúltima, etc. A intenção é focar a atenção do leitor ao centro da passagem como ponto principal.
Nesse caso, vemos que sem a passagem duvidosa o quiasma funciona perfeitamente: Jesus pede que “orem, para não cair em tentação”, se afasta deles, se ajoelha, e ora. O centro da passagem se torna a própria oração de Jesus, pedindo que a vontade de deus seja feita. Em seguida, termina a oração, se levanta, volta para os discípulos e, ao encontrá-los dormindo, repete a instrução “orem, para que não entrem em tentação”.
A intenção do autor é clara, intensificar a oração de Jesus e facilitar a sua interpretação: Jesus pede para seus discípulos orarem para afastar as tentações. Em seguida, ele próprio ora para deus afastar dele esse cálice, mas que mesmo assim que a sua vontade seja feita. E o que acontece quando ele volta? Seus discípulos justamente ao invés de orar, caíram em tentação e dormiram. Ao ver os inimigos, fugiram. Jesus, que permaneceu orando, obedeceu à vontade de deus e foi para o martírio.
Com a adição das passagens duvidosas o quiasma é completamente destruído. O centro da passagem se torna a agonia de Jesus, uma agonia tão grande que fez seu suor se transformar em sangue. Ao invés de enfatizar que a vontade de deus deve ser feita, enfatizou que a oração de Jesus não serviu em nada para acalmar sua agonia.
Essa passagem simplesmente não parece se encaixar na narrativa, e o motivo é muito simples: ela foi inserida posteriormente. O motivo, como nós vimos, pode ser para combater idéias docentistas. Curiosamente essa passagem foi utilizada por cristãos proto-ortodoxos como Justino, Irineu e Hippolytus para refutar a idéia de que Jesus não era um ser humano real, já que eles representavam tão nitidamente o sofrimento humano e agonia de Jesus.
O sangue derramado “por você”
Uma das mais famosas passagens da bíblia, recitada em todas as missas, também não está presente nos manuscritos mais antigos, tanto gregos quanto na versão em latim. É aquela em que Jesus está na última ceia:
| Lucas,22:17 | Recebendo um cálice, ele deu graças e disse: "Tomem isto e partilhem uns com os outros. |
| Lucas,22:18 | Pois eu lhes digo que não beberei outra vez do fruto da videira até que venha o Reino de Deus". |
| Lucas,22:19 | Tomando o pão, deu graças, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: "Isto é o meu corpo dado em favor de vocês; façam isto em memória de mim". |
| Lucas,22:20 | Da mesma forma, depois da ceia, tomou o cálice, dizendo: "Este cálice é a nova aliança no meu sangue, derramado em favor de vocês. |
| Lucas,22:21 | "Mas eis que a mão daquele que vai me trair está com a minha sobre a mesa. |
Pode parecer estranho, por causa da familiaridade do texto, porém toda a parte em destaque, desde “dado em favor de vocês”, até “derramado em favor de vocês”, é espúria. Nos manuscritos mais antigos, Jesus simplesmente
diz “Isto é o meu corpo. Mas eis que a mão daquele que vai me trair está com a minha sobre a mesa.” Até a bíblia Nova Versão Internacional admite isso em suas notas de rodapé.
Uma adição como essas é muito mais fácil de explicar do que uma remoção. Por que um escriba removeria toda essa parte? Não faria sentido. A adição dela, pelo contrário, é bastante conveniente, já que pode ser usada contra os docentistas ao mostrar que Jesus de fato tinha corpo, tinha sangue, e foi derramado de verdade.
Outra curiosidade, essa adição além de tudo não representa o entendimento que o escritor de Lucas tinha a respeito da morte de Jesus. Por mais incrível que possa parecer, nunca, em nenhum outro lugar do livro de Lucas e Atos, é indicado que a morte de Jesus serve para perdoar os pecados. Inclusive onde essa indicação ocorre em Marcos (a fonte usada em Lucas), Lucas altera as palavras ou as elimina. Isso por si só já é assunto para outro tópico, mas quem quiser, compare Marcos 10: 45 com Lucas 22: 24-30 e Marcos 15:39 com Lucas 23: 47, só para ver alguns exemplos. Lucas simplesmente interpretava a morte de Jesus de outra forma. Para ele, a morte de Jesus serve para fazer as pessoas reconhecerem a sua culpa perante deus (já que ele morreu mesmo sendo inocente). Assim que as pessoas reconhecerem seus pecados, elas se voltam para deus em arrependimento, e seus pecados são perdoados. Podemos ver essa interpretação, por exemplo, nos capítulos 3, 4 e 13 de Atos dos Apóstolos. Para Lucas, não é a morte de Cristo que traz a salvação, e sim o arrependimento pela culpa e o reconhecimento dos pecados.
Novamente, uma adição posterior provocada por uma interpretação diferente dos cristãos proto-ortodoxos destoou a intenção original do autor, e a motivação novamente foi para dar humanidade a Jesus Cristo, provavelmente para contrapor idéias docentistas.
Os lençóis que ficaram para trás
Outro verso que pode ter sido adicionado por cristãos proto-ortodoxos ocorre em Lucas 24: 12, logo após Jesus ser ressuscitado. Algumas mulheres seguidoras de Jesus foram ao sepulcro e, encontrando ele vazio, dois homens falaram que Jesus não estava mais lá, porque ressuscitou. Elas voltam para os discípulos, que não acreditaram, chamando suas histórias de “desvarios”. Então, em alguns manuscritos, encontra-se essa passagem:
| Lucas,24:12 | Pedro, porém, levantando-se, correu ao sepulcro e, abaixando-se, viu só os lençóis ali postos; e retirou-se, admirando consigo aquele caso. |
Novamente, esse verso não está presente nos manuscritos mais antigos. Novamente, ele possui palavras não usadas em nenhum outro lugar em Lucas (por exemplo, é usado outra palavra para “lençóis” em Lucas 23: 53). Novamente,
é difícil explicar por que alguém removeria essa passagem. Agora, para acrescentá-la há justificativas plausíveis: demonstra que Jesus não era nenhum “fantasma”, que ele era de carne e osso, apoiando muito bem a causa anti-docentista dos cristãos proto-ortodoxos.
Elevado ao céu?
Elevado ao céu?
A última passagem que veremos nesse estudo encontra-se no final do livro de Lucas:
| Lucas,24:50 | E levou-os fora, até Betânia; e, levantando as suas mãos, os abençoou. |
| Lucas,24:51 | E aconteceu que, abençoando-os ele, se apartou deles e foi elevado ao céu. |
A parte final, “e foi elevado ao céu”, é uma inserção que se encontra em apenas alguns manuscritos antigos, inclusive em um dos melhores manuscritos que temos preservado até hoje, o Codex Sinaiticus. Essa é uma adição significante porque enfatiza a forma física de Jesus em sua ascensão aos céus, ao invés do insípido “se apartou deles”.
No entanto, é difícil acreditar essa passagem fazia parte do original escrito pelo autor de Lucas, já que ele também escreveu o livro de Atos dos Apóstolos, e nesse outro livro também há um relato da ascensão de Cristo, porém bem diferente... nele, Jesus subiu aos céus 40 dias após a ressurreição!
Será que o autor esqueceu o que escreveu no final de um livro, para se contradizer logo no início de outro? Certamente que não. Trata-se de uma adição posterior, com o intuito de enfatizar um ponto de vista específico, ou seja, uma adulteração do texto original com motivações teológicas anti-docentistas.
sexta-feira, 30 de março de 2012
Adulterações das Escrituras por Motivos Teológicos - I
Durante o segundo e terceiro séculos da era comum –
aproximadamente no tempo em que estavam sendo escritos os últimos livros que
ainda formariam o que chamamos hoje de Novo Testamento – havia uma particularmente
rica diversidade teológica entre os primeiros cristãos.
Na verdade, essa diversidade era tão grande que muitos dos
que se consideravam cristãos naquela época jamais seriam chamados cristãos
hoje.
Durante essa época, além dos cristãos que acreditavam que
havia um único deus, criador de tudo, também havia cristãos que acreditavam
na existência de dois deuses, o deus do Antigo Testamento, o deus de Israel, o
deus da ira, da guerra e da vingança, e o deus do Novo Testamento, o deus de
Jesus, do amor, da paz e do perdão. O maior representante desse tipo de
cristianismo chamava-se Marcion, uma figura importante que veremos com mais
detalhes a seguir. Além disso, havia os cristãos gnósticos que acreditavam na
existência de 12 deuses. Outros diziam ser 30. Outros ainda, 365.
Alguns desses grupos acreditavam, como os cristãos de hoje,
que Jesus era 100% humano e 100% deus. Outros, que Jesus era 100% homem e 0%
deus, mais ou menos como as Testemunhas de Jeová. Outros ainda achavam que
Jesus era 0% humano e 100% divino. Existiam ainda aqueles que tinham a curiosa
crença de que Jesus Cristo era composto por duas entidades distintas que
dividiam o mesmo corpo: o humano Jesus e o divino Cristo.
Alguns grupos achavam que a morte de Jesus era o único caminho
para a salvação. Outros, que a morte de Jesus não tinha nada a ver com salvação
alguma. E outros ainda achavam que Jesus nem mesmo tinha morrido.
Enfim, havia uma profusão de crenças totalmente distintas,
cada uma considerando a si próprio o verdadeiro e único cristianismo tal como
foi ensinado por Jesus Cristo, enquanto todas as outras não passavam de
heresias, deturpações.
Alguém pode se perguntar: Por que simplesmente não liam o
Novo Testamento e tiravam as dúvidas? Oras, acontece que ainda não havia Novo
Testamento. Para falar a verdade, alguns dos livros que compõem o NT nem haviam
sido escritos ainda, além de que haviam muitos outros livros que jamais entraram na
bíblia, mas que na época eram considerados escritos originais dos apóstolos:
outros evangelhos (como o evangelho de Paulo, Pedro, Maria, Judas, e até
Jesus), atos (como os atos de Paulo, atos de Pedro), cartas (como III
Coríntios), e apocalipses, muito diferentes dos que conhecemos agora.
Cada grupo escolhia os livros que considerava originais – e
muitas vezes deturpavam ou fraudavam completamente os textos de acordo com seus
propósitos. Não havia um acordo universal até o concílio de Nicéia. Mas, até
lá, era cada um por si.
O primeiro cristão que temos registro que fez uma tentativa
de reunir um cânon oficial foi Marcion, de quem falamos antes. Mas sua “bíblia”
era bem diferente da que conhecemos hoje. Como para ele o deus do Antigo
Testamento era um deus de ódio e vingança, ele era considerado um deus menor,
inferior, e, portanto, não era o deus verdadeiro. Por isso, nenhum dos livros
do AT foram incluídos. Marcion considerava também apenas Paulo como o
verdadeiro discípulo de Jesus. Todos os outros discípulos, segundo ele, não
entenderam a mensagem verdadeira de Cristo. Assim, em seu cânon, Marcion
incluiu apenas as 10 cartas de Paulo que tinha à disposição, ou seja, todas as
do Novo Testamento menos I e II Timóteo, e Tito. Marcion incluiu também apenas
um evangelho, uma versão alterada de Lucas. E era isso, essa era a sua bíblia.
Marcion, como muitos daquela época, não hesitou em alterar
as partes de sua bíblia que considerava erradas. Assim, ele acomodava suas
escrituras de acordo com suas crenças.
Será que essa prática também foi usada nos livros que hoje
compões a bíblia oficial? Certamente que sim. Não apenas Marcion, mas também
aqueles outros cristianismos diferentes eram uma ameaça constante ao
“verdadeiro cristianismo”, e assim as partes das escrituras que pareciam apoiar
as idéias de Marcion, dos gnósticos, e dos outros eram alteradas pelos
escribas. Sabemos disso porque essas alterações não estão presentes nos
manuscritos mais antigos. E, analisando criticamente o contexto histórico,
entendemos por que elas foram alteradas.
Nas próximas partes desse estudo veremos algumas passagens
que os estudiosos consideram adulterações das escrituras mais antigas para
enfraquecer os pontos de vista contrários e fortalecer os seus, ou seja,
adulterações por motivações teológicas.
domingo, 4 de dezembro de 2011
Pervertendo o livre-arbítrio
Cristãos costumam dizer que uma das coisas mais preciosas que deus nos deu foi o livre-arbítrio. Que sem ele seríamos meros robôs controlados por ele, e que esse é o motivo de tanta maldade do mundo, etc.
Porém há casos na bíblia em que vemos claramente que deus não se importa nem um pouquinho com o livre-arbítrio, ou seja, para ele não é tão importante assim. Um dos exemplos mais claros é o do endurecimento do coração do faraó:
Êxodo 4:21 Disse o SENHOR a Moisés: Quando voltares ao Egito, vê que faças diante de faraó todos os milagres que te hei posto na mão; mas eu lhe endurecerei o coração, para que não deixe ir o povo.
Êxodo 7:3 Eu, porém, endurecerei o coração de faraó e multiplicarei na terra do Egito os meus sinais e as minhas maravilhas.
Êxodo 9:12 Porém o SENHOR endureceu o coração de faraó, e este não os ouviu, como o SENHOR tinha dito a Moisés
Êxodo 10:1 Disse o SENHOR a Moisés: Vai ter com faraó, porque lhe endureci o coração e o coração de seus oficiais, para que eu faça estes meus sinais no meio deles,
Ou seja, fica claro nesses versos que faraó não tinha escolha alguma, já que ele teve o coração deliberadamente endurecido por deus para fazer o que deus queria desde o início: a matança e o sofrimento de pessoas.
Provavelmente em sua onisciência deus viu que sem endurecer o coração do faraó ele acabaria libertando o povo hebreu. Isso significa que não haveria outra forma de castigá-los sem interferência divina. Deus os fez culpados pervertendo o livre-arbítrio. Mas eles não eram culpados de verdade, já que deus não deu escolha a eles.
Uau, essa é a moralidade do livro pelo qual muitos cristãos diriam que sem ele não saberíamos diferenciar o certo do errado! Estou perplexo! O que faríamos sem ele? o.O
Porém há casos na bíblia em que vemos claramente que deus não se importa nem um pouquinho com o livre-arbítrio, ou seja, para ele não é tão importante assim. Um dos exemplos mais claros é o do endurecimento do coração do faraó:
Êxodo 4:21 Disse o SENHOR a Moisés: Quando voltares ao Egito, vê que faças diante de faraó todos os milagres que te hei posto na mão; mas eu lhe endurecerei o coração, para que não deixe ir o povo.
Êxodo 7:3 Eu, porém, endurecerei o coração de faraó e multiplicarei na terra do Egito os meus sinais e as minhas maravilhas.
Êxodo 9:12 Porém o SENHOR endureceu o coração de faraó, e este não os ouviu, como o SENHOR tinha dito a Moisés
Êxodo 10:1 Disse o SENHOR a Moisés: Vai ter com faraó, porque lhe endureci o coração e o coração de seus oficiais, para que eu faça estes meus sinais no meio deles,
Ou seja, fica claro nesses versos que faraó não tinha escolha alguma, já que ele teve o coração deliberadamente endurecido por deus para fazer o que deus queria desde o início: a matança e o sofrimento de pessoas.
Provavelmente em sua onisciência deus viu que sem endurecer o coração do faraó ele acabaria libertando o povo hebreu. Isso significa que não haveria outra forma de castigá-los sem interferência divina. Deus os fez culpados pervertendo o livre-arbítrio. Mas eles não eram culpados de verdade, já que deus não deu escolha a eles.
Uau, essa é a moralidade do livro pelo qual muitos cristãos diriam que sem ele não saberíamos diferenciar o certo do errado! Estou perplexo! O que faríamos sem ele? o.O
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terça-feira, 29 de novembro de 2011
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Quando foi o chamado de deus a Abraão?
Antes dele habitar em Harã:
Atos 7:2 Estêvão respondeu: Varões irmãos e pais, ouvi. O Deus da glória apareceu a Abraão, nosso pai, quando estava na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã,
Atos 7:2 Estêvão respondeu: Varões irmãos e pais, ouvi. O Deus da glória apareceu a Abraão, nosso pai, quando estava na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã,
Atos 7:3 e
lhe disse: Sai da tua terra e da tua parentela e vem para a terra que eu te
mostrarei.
Depois de habitar em Harã:
Gênesis 11:31 Tomou
Tera a Abrão, seu filho, e a Ló, filho de Harã, filho de seu filho, e a Sarai,
sua nora, mulher de seu filho Abrão, e saiu com eles de Ur dos caldeus, para ir
à terra de Canaã; foram até Harã, onde ficaram.
(...)
Gênesis 12:4 Partiu,
pois, Abrão, como lho ordenara o SENHOR, e Ló foi com ele. Tinha Abrão setenta
e cinco anos quando saiu de Harã.
Como vemos, Estêvão parece ter se enganado, pois gênesis diz claramente que Abraão foi habitar em Harã primeiro, e depois foi chamado por deus para sair de lá, quando tinha 75 anos.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Quem se manifestou em carne?
Um exemplo de como erros de copistas podem ter implicações teológicas sérias pode ser visto na passagem de I Timóteo 3: 16, onde ocorre uma contradição entre manuscritos, e algumas bíblias, como a King James e no Brasil a Almeida Fiel traduzem dessa forma:
1 Timóteo 3:16 And without controversy great is the mystery of godliness: God was manifest in the flesh, justified in the Spirit, seen of angels, preached unto the Gentiles, believed on in the world, received up into glory. (Versão King James)
1 Timóteo 3:16 E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória. (Versão Almeira Fiel)
Enquanto outras vertem da seguinte forma:
1 Timóteo 3:16 E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Aquele que se manifestou em carne, foi justificado em espírito, visto dos anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, e recebido acima na glória. (Versão Almeida Atualizada)
E
1 Timóteo 3:16 Evidentemente, grande é o mistério da piedade: Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em espírito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória. (Versão Almeida Revista e Atualizada)
Essas últimas versões e todas as que seguem seu exemplo geralmente são duramente acusadas por lideres evangélicos fundamentalistas de "minar a divindade de Cristo", "enfraquecer a autoridade" e muitas vezes acusada até de trabalhar "em prol de Satanás". Afinal de contas esse é um dos poucos versículos onde é dito claramente que Jesus é Deus encarnado, e alguém que enfraqueça essa posição só pode ser contra Deus, não é?
No entanto a verdade é bem o contrário.
Johann J. Wettstein (1693-1754), controverso estudioso dos manuscritos bíblicos, foi um dos primeiros a ficar intrigado com essa passagem, e com as enormes implicações que suas conclusões trariam. As passagens que mostram "Deus se manifestou em carne" provém dos chamados Textus Receptus (TT), também chamados bizantinos, provenientes do século XII em sua maioria, existentes em grandes quantidades e em bom estado de conservação, e tidos na época como os mais confiáveis.
É comum nas passagens em grego os nomes sagrados - chamados nomina sacra - serem escritos abreviados com um traço em cima. Nesse caso, a palavra Deus (ΘΕΟΣ) é comumente escrita apenas como teta-sigma (ΘΣ)com um traço em cima indicando que se trata de uma abreviação. Esse de fato foi o caso nessa passagem, porém Wettstein reparou que em alguns manuscritos bizantinos o traço no meio da letra teta (Θ) e em cima da abreviação foi feita com uma tinta diferente do resto do texto. Dessa forma a palavra seria apenas omicron-sigma (ΟΣ) que simplesmente significa "aquele".
Wettstein foi então em busca de manuscritos mais antigos, entre eles o Codex Alexandrinos, datados de cerca do quarto século da era comum, em estado pior de conservação, porém considerados hoje melhores que o TT, justamente por estarem mais próximos dos originais, e confirmou que o texto em questão não atribui a divindade de Deus a Cristo! Ou seja, foi uma adulteração posterior deliberada feita por pessoas que queriam fortalecer a divindade de Cristo, e não o contrário!
Uma pequena mudança que tem implicações enormes, não acham?
Wettstein encontrou não apenas nessa, mas descobriu que em outras passagens no TT também foram alteradas de alguma forma para fortalecer a divindade de Cristo, como por exemplo em Atos 20:28 onde fala da "igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue" nos textos bizantinos, mas que nos textos alexandrinos é dito "igreja do Senhor, que ele resgatou com seu próprio sangue".
Ou seja, os argumentos de enfraquecimento da divindade de Cristo nas bíblias não passa de mimimi e chororô de cristãos que não conhecem a história por trás daqueles que alteraram a bíblia de acordo com seus próprios propósitos.
Fontes:
1 - Misquotin Jesus - The Story Behind Who Changed the Bible and Why - Ehrman, Bart D.
2 - Jhon James Wettstein, 1693-1754: An Account of His Life, Woek, and Some os His Contemporaries - C. L. Hulbert-Powell.
1 Timóteo 3:16 And without controversy great is the mystery of godliness: God was manifest in the flesh, justified in the Spirit, seen of angels, preached unto the Gentiles, believed on in the world, received up into glory. (Versão King James)
1 Timóteo 3:16 E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória. (Versão Almeira Fiel)
Enquanto outras vertem da seguinte forma:
1 Timóteo 3:16 E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Aquele que se manifestou em carne, foi justificado em espírito, visto dos anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, e recebido acima na glória. (Versão Almeida Atualizada)
E
1 Timóteo 3:16 Evidentemente, grande é o mistério da piedade: Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em espírito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória. (Versão Almeida Revista e Atualizada)
Essas últimas versões e todas as que seguem seu exemplo geralmente são duramente acusadas por lideres evangélicos fundamentalistas de "minar a divindade de Cristo", "enfraquecer a autoridade" e muitas vezes acusada até de trabalhar "em prol de Satanás". Afinal de contas esse é um dos poucos versículos onde é dito claramente que Jesus é Deus encarnado, e alguém que enfraqueça essa posição só pode ser contra Deus, não é?
No entanto a verdade é bem o contrário.
Johann J. Wettstein (1693-1754), controverso estudioso dos manuscritos bíblicos, foi um dos primeiros a ficar intrigado com essa passagem, e com as enormes implicações que suas conclusões trariam. As passagens que mostram "Deus se manifestou em carne" provém dos chamados Textus Receptus (TT), também chamados bizantinos, provenientes do século XII em sua maioria, existentes em grandes quantidades e em bom estado de conservação, e tidos na época como os mais confiáveis.
É comum nas passagens em grego os nomes sagrados - chamados nomina sacra - serem escritos abreviados com um traço em cima. Nesse caso, a palavra Deus (ΘΕΟΣ) é comumente escrita apenas como teta-sigma (ΘΣ)com um traço em cima indicando que se trata de uma abreviação. Esse de fato foi o caso nessa passagem, porém Wettstein reparou que em alguns manuscritos bizantinos o traço no meio da letra teta (Θ) e em cima da abreviação foi feita com uma tinta diferente do resto do texto. Dessa forma a palavra seria apenas omicron-sigma (ΟΣ) que simplesmente significa "aquele".
Wettstein foi então em busca de manuscritos mais antigos, entre eles o Codex Alexandrinos, datados de cerca do quarto século da era comum, em estado pior de conservação, porém considerados hoje melhores que o TT, justamente por estarem mais próximos dos originais, e confirmou que o texto em questão não atribui a divindade de Deus a Cristo! Ou seja, foi uma adulteração posterior deliberada feita por pessoas que queriam fortalecer a divindade de Cristo, e não o contrário!
Uma pequena mudança que tem implicações enormes, não acham?
Wettstein encontrou não apenas nessa, mas descobriu que em outras passagens no TT também foram alteradas de alguma forma para fortalecer a divindade de Cristo, como por exemplo em Atos 20:28 onde fala da "igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue" nos textos bizantinos, mas que nos textos alexandrinos é dito "igreja do Senhor, que ele resgatou com seu próprio sangue".
Ou seja, os argumentos de enfraquecimento da divindade de Cristo nas bíblias não passa de mimimi e chororô de cristãos que não conhecem a história por trás daqueles que alteraram a bíblia de acordo com seus próprios propósitos.
Fontes:
1 - Misquotin Jesus - The Story Behind Who Changed the Bible and Why - Ehrman, Bart D.
2 - Jhon James Wettstein, 1693-1754: An Account of His Life, Woek, and Some os His Contemporaries - C. L. Hulbert-Powell.
domingo, 25 de julho de 2010
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Deus sacaneando deficientes
Existem muitas passagens absurdas na bíblia, mas algumas são tão absurdas - mas tão absurdas, como essa que veremos a seguir - que muitos crentes são obrigados a admitir que elas são apenas acréscimos de lendas populares e que não representam a verdade.
O problema é que se eles admitirem que se alguma passagem foi inventada pelo costume popular, então o que impede que outras passagens também não sejam? Quem sabe passagens importantes da crença cristã? Por isso a maioria dos crentes preferem apenas se calar de vergonha do que dizer algo a respeito.
Nesse episódio temos um tanque onde se acreditava que um anjo agitava a água e com isso curava o primeiro que chegasse nela:
João 5, 2 Ora, em Jerusalém há, próximo à porta das ovelhas, um tanque, chamado em hebreu Betesda, o qual tem cinco alpendres.
João 5, 3 Nestes jazia grande multidão de enfermos, cegos, mancos e ressicados, esperando o movimento da água.
João 5, 4 Porquanto um anjo descia em certo tempo ao tanque, e agitava a água; e o primeiro que ali descia, depois do movimento da água, sarava de qualquer enfermidade que tivesse.
Imagino a cena, uma multidão de deficientes físicos, cegos, doentes, se acotovelando e se atropelando para ser o único que receberia a cura.
Jesus fica sabendo de um homem doente há 38 anos, e que era sempre passado para trás na hora do "rush milagroso":
João 5, 5 E estava ali um homem que, havia trinta e oito anos, se achava enfermo.
João 5, 6 E Jesus, vendo este deitado, e sabendo que estava neste estado havia muito tempo, disse-lhe: Queres ficar são?
João 5, 7 O enfermo respondeu-lhe: Senhor, não tenho homem algum que, quando a água é agitada, me ponha no tanque; mas, enquanto eu vou, desce outro antes de mim.
Se era para curar, por que não curava a todos? Os poderes do anjo "gastam" depois do primeiro uso? Por que não colocar mais anjos "ajudando", se esse fosse o problema? Por que curar "o primeiro", se o que chega mais rápido provavelmente é o que menos necessita de cura imediata?
A impressão que dá nessa lenda absurda é que deus gosta de ver o sofrimento, a miséria e a decepção humana estampada no rosto de cada um, para que vejam o quanto ele é fodão.
Imagino o que se passaria na cabeça do anjo: "- Não insistam, já curei um hoje, agora só na semana que vem. Tchau, tô indo senão eu perco o final de Lost. Fui!" :D
E Jesus? Jesus também só curou um, o homem que falou com ele. O resto teve que esperar a boa vontade do anjo voltar! :D
O problema é que se eles admitirem que se alguma passagem foi inventada pelo costume popular, então o que impede que outras passagens também não sejam? Quem sabe passagens importantes da crença cristã? Por isso a maioria dos crentes preferem apenas se calar de vergonha do que dizer algo a respeito.
Nesse episódio temos um tanque onde se acreditava que um anjo agitava a água e com isso curava o primeiro que chegasse nela:
João 5, 2 Ora, em Jerusalém há, próximo à porta das ovelhas, um tanque, chamado em hebreu Betesda, o qual tem cinco alpendres.
João 5, 3 Nestes jazia grande multidão de enfermos, cegos, mancos e ressicados, esperando o movimento da água.
João 5, 4 Porquanto um anjo descia em certo tempo ao tanque, e agitava a água; e o primeiro que ali descia, depois do movimento da água, sarava de qualquer enfermidade que tivesse.
Imagino a cena, uma multidão de deficientes físicos, cegos, doentes, se acotovelando e se atropelando para ser o único que receberia a cura.
Jesus fica sabendo de um homem doente há 38 anos, e que era sempre passado para trás na hora do "rush milagroso":
João 5, 5 E estava ali um homem que, havia trinta e oito anos, se achava enfermo.
João 5, 6 E Jesus, vendo este deitado, e sabendo que estava neste estado havia muito tempo, disse-lhe: Queres ficar são?
João 5, 7 O enfermo respondeu-lhe: Senhor, não tenho homem algum que, quando a água é agitada, me ponha no tanque; mas, enquanto eu vou, desce outro antes de mim.
Parece piada! Deus, se ele existisse dessa forma, seria um sacana filha da puta dos infernos, por tratar o ser humano dessa forma.
Se era para curar, por que não curava a todos? Os poderes do anjo "gastam" depois do primeiro uso? Por que não colocar mais anjos "ajudando", se esse fosse o problema? Por que curar "o primeiro", se o que chega mais rápido provavelmente é o que menos necessita de cura imediata?
A impressão que dá nessa lenda absurda é que deus gosta de ver o sofrimento, a miséria e a decepção humana estampada no rosto de cada um, para que vejam o quanto ele é fodão.
Imagino o que se passaria na cabeça do anjo: "- Não insistam, já curei um hoje, agora só na semana que vem. Tchau, tô indo senão eu perco o final de Lost. Fui!" :D
E Jesus? Jesus também só curou um, o homem que falou com ele. O resto teve que esperar a boa vontade do anjo voltar! :D
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domingo, 18 de julho de 2010
Deus nos queria ignorantes?
Gênesis 2, 17 Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás;
Parece evidente que o deus bíblico queria que o homem permanecesse ignorante por toda a eternidade.
Sem ter o conhecimento do bem e do mal, como poderia ele aprender sobre o mundo que o cerca?
Como poderia adquirir tecnologia, ciência, sabedoria?
Os planos iniciais de deus era que o homem não investigasse o mundo ao seu redor, não perguntasse, não questionasse. Apenas vivesse, como qualquer outro animal.
O conhecimento foi a causa de todos os problemas para deus (e continua sendo até hoje). Portanto, nada mais justo que o conhecimento seja o maior inimigo de deus.
Parece evidente que o deus bíblico queria que o homem permanecesse ignorante por toda a eternidade.
Sem ter o conhecimento do bem e do mal, como poderia ele aprender sobre o mundo que o cerca?
Como poderia adquirir tecnologia, ciência, sabedoria?
Os planos iniciais de deus era que o homem não investigasse o mundo ao seu redor, não perguntasse, não questionasse. Apenas vivesse, como qualquer outro animal.
O conhecimento foi a causa de todos os problemas para deus (e continua sendo até hoje). Portanto, nada mais justo que o conhecimento seja o maior inimigo de deus.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
As sementes mortas que germinam
Paulo demonstra sua ignorância (bem como a de deus), a dizer que as sementes precisam morrer para germinar:
1 Coríntios 15:36 Insensato! O que semeias não nasce, se primeiro não morrer;
Na verdade, as sementes precisam estar vivas para germinarem, ao contrário do que o escritor da bíblia pensava.
1 Coríntios 15:36 Insensato! O que semeias não nasce, se primeiro não morrer;
Na verdade, as sementes precisam estar vivas para germinarem, ao contrário do que o escritor da bíblia pensava.
terça-feira, 20 de abril de 2010
Deus, o mentirosinho I
Deus diz a Acaz, rei de Judá, a não se preocupar com Rezim, rei da Síria, nem com Peca, filho de Remalias, o então rei de Israel. Deus diz que nada acontecerá a ele:
Isaías 7, 3 Então disse o SENHOR a Isaías: Agora, tu e teu filho Sear-Jasube, saí ao encontro de Acaz, ao fim do canal do tanque superior, no caminho do campo do lavandeiro.
Isaías 7, 4 E dize-lhe: Acautela-te, e aquieta-te; não temas, nem se desanime o teu coração por causa destes dois pedaços de tições fumegantes; por causa do ardor da ira de Rezim, e da Síria, e do filho de Remalias.
Isaías 7, 5 Porquanto a Síria teve contra ti maligno conselho, com Efraim, e com o filho de Remalias, dizendo:
Isaías 7, 6 Vamos subir contra Judá, e molestemo-lo e repartamo-lo entre nós, e façamos reinar no meio dele o filho de Tabeal.
Isaías 7, 7 Assim diz o Senhor DEUS: Isto não subsistirá, nem tampouco acontecerá.
Porém, a própria bíblia nos diz que Acaz caiu nas mãos da Siria, e de Peca, filho de Remalias:
2 Crônicas 28, 1 Tinha Acaz vinte anos de idade, quando começou a reinar, e dezesseis anos reinou em Jerusalém; e não fez o que era reto aos olhos do SENHOR, como Davi, seu pai.
(...)
2 Crônicas 28, 5 Por isso o SENHOR seu Deus o entregou na mão do rei dos sírios, os quais o feriram, e levaram dele em cativeiro uma grande multidão de presos, que trouxeram a Damasco; também foi entregue na mão do rei de Israel, o qual lhe infligiu grande derrota.
2 Crônicas 28, 6 Porque Peca, filho de Remalias, matou em Judá, num só dia, cento e vinte mil, todos homens valentes; porquanto deixaram ao SENHOR Deus de seus pais.
Ooops, sorry, foi mals ae...
Isaías 7, 3 Então disse o SENHOR a Isaías: Agora, tu e teu filho Sear-Jasube, saí ao encontro de Acaz, ao fim do canal do tanque superior, no caminho do campo do lavandeiro.
Isaías 7, 4 E dize-lhe: Acautela-te, e aquieta-te; não temas, nem se desanime o teu coração por causa destes dois pedaços de tições fumegantes; por causa do ardor da ira de Rezim, e da Síria, e do filho de Remalias.
Isaías 7, 5 Porquanto a Síria teve contra ti maligno conselho, com Efraim, e com o filho de Remalias, dizendo:
Isaías 7, 6 Vamos subir contra Judá, e molestemo-lo e repartamo-lo entre nós, e façamos reinar no meio dele o filho de Tabeal.
Isaías 7, 7 Assim diz o Senhor DEUS: Isto não subsistirá, nem tampouco acontecerá.
Porém, a própria bíblia nos diz que Acaz caiu nas mãos da Siria, e de Peca, filho de Remalias:
2 Crônicas 28, 1 Tinha Acaz vinte anos de idade, quando começou a reinar, e dezesseis anos reinou em Jerusalém; e não fez o que era reto aos olhos do SENHOR, como Davi, seu pai.
(...)
2 Crônicas 28, 5 Por isso o SENHOR seu Deus o entregou na mão do rei dos sírios, os quais o feriram, e levaram dele em cativeiro uma grande multidão de presos, que trouxeram a Damasco; também foi entregue na mão do rei de Israel, o qual lhe infligiu grande derrota.
2 Crônicas 28, 6 Porque Peca, filho de Remalias, matou em Judá, num só dia, cento e vinte mil, todos homens valentes; porquanto deixaram ao SENHOR Deus de seus pais.
Ooops, sorry, foi mals ae...
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quarta-feira, 31 de março de 2010
O deus que matou seu filho
Pois é, semana santa, e mais uma vez o clima de Páscoa está presente.
Apesar de haver muitas coisas nas quais eu particularmente não entendo a respeito da crucificação de Jesus.
Afinal de contas, os cristãos agradecem a deus por matar o seu próprio filho para impedir que ele os torture horrivelmente após a morte por toda a eternidade por causa de uma coisa que duas pessoas fizeram no passado distante. Francamente isso já é difícil de entender.
Ademais, um pai que mata um filho inocente não merece adoração. É algo tão simples que não precisaria de mais explicações.
E deus matou seu filho, está escrito na bíblia:
Romanos 8:32 Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou,
E mais, ele planejou a morte de seu filho antes mesmo da fundação do mundo:
1 Pedro 1, 18 Sabendo (...) que fostes resgatados
1 Pedro 1, 19 (...) com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado,
1 Pedro 1, 20 O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo
É, o casal Nardoni atira sua filha pela janela e todos pedem justiça e condenação, mas deus mata seu filho pendurado numa cruz e todos aplaudem.
Vai entender.
Apesar de haver muitas coisas nas quais eu particularmente não entendo a respeito da crucificação de Jesus.
Afinal de contas, os cristãos agradecem a deus por matar o seu próprio filho para impedir que ele os torture horrivelmente após a morte por toda a eternidade por causa de uma coisa que duas pessoas fizeram no passado distante. Francamente isso já é difícil de entender.
Ademais, um pai que mata um filho inocente não merece adoração. É algo tão simples que não precisaria de mais explicações.
E deus matou seu filho, está escrito na bíblia:
Romanos 8:32 Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou,
E mais, ele planejou a morte de seu filho antes mesmo da fundação do mundo:
1 Pedro 1, 18 Sabendo (...) que fostes resgatados
1 Pedro 1, 19 (...) com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado,
1 Pedro 1, 20 O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo
É, o casal Nardoni atira sua filha pela janela e todos pedem justiça e condenação, mas deus mata seu filho pendurado numa cruz e todos aplaudem.
Vai entender.
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quarta-feira, 24 de março de 2010
Deus é autor de confusão?
Sim:
Gênesis 11:7 Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem de outro.
Gênesis 11:8 Destarte, o SENHOR os dispersou dali pela superfície da terra; e cessaram de edificar a cidade.
Gênesis 11:9 Chamou-se-lhe, por isso, o nome de Babel, porque ali confundiu o SENHOR a linguagem de toda a terra e dali o SENHOR os dispersou por toda a superfície dela.
Não:
1 Coríntios 14:33 porque Deus não é de confusão (...)
Gênesis 11:7 Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem de outro.
Gênesis 11:8 Destarte, o SENHOR os dispersou dali pela superfície da terra; e cessaram de edificar a cidade.
Gênesis 11:9 Chamou-se-lhe, por isso, o nome de Babel, porque ali confundiu o SENHOR a linguagem de toda a terra e dali o SENHOR os dispersou por toda a superfície dela.
Não:
1 Coríntios 14:33 porque Deus não é de confusão (...)
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