Mostrando postagens com marcador Jesus. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jesus. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 24 de maio de 2012

WTF cristão II

Passeando pela internet eu dei de cara com isso aqui, o que parece parte de um livro educacional cristão para crianças:


Posso falar várias coisas de errado e até perturbadoras nessa imagem, sendo que Jesus baixando a calça de uma menina expondo a calcinha dela e dando uns tapas no bumbum a pior delas, então vou tentar ignorar isso por enquanto e deixar por último.

No texto está escrito:

"Mas quando algumas vezes somos bem maus ou tolos e fazemos coisas que sabemos ser erradas, o Senhor pode retirar a sua proteção e deixar que nos machuquemos ou fiquemos doentes como punição por sermos tão mal criados.

Algumas vezes é por isso que ficamos doentes, porque o Senhor está nos dando palmadas por sermos mal criados. Quando ficamos doentes deveríamos orar e perguntar ao Senhor por quê."

Acho extremamente perigoso e displicente ensinar crianças que quando ficam doentes ou se machucam é porque Jesus as está punindo por serem más. Isso pode levá-las a um sentimento de culpa e sofrimento injustificado, um tormento psicológico na qual elas não merecem passar. Isso para mim se equipara a abuso infantil.

Podemos imaginar o que passa na cabeça de uma criança que sofre de leucemia, o que será que ela pode ter feito para merecer ser punida desse jeito?

Péssima teologia, remanescente dos tempos da idade de bronze quando o homem achava que terremotos, secas e furacões eram punições divinas pelo mau comportamento do povo. Infelizmente muita gente ainda acredita nessa bobagem, e passam seus traumas e seus medos a crianças inocentes.

E outra coisa, orar e pedir para deus explicar o por quê do sofrimento não adianta nada (Jó que o diga). A única coisa que a criança vai ouvir é a sua própria voz na cabeça, e achar que é deus, Jesus, anjos, etc, alimentando a ilusão e os seus medos.

Crianças precisam de compreensão, amor e carinho, e não de neuroses, medos e dúvidas.

Explicar que é a "vontade de deus" ou "castigo divino" que uma criança esteja sofrendo uma horrível doença degenerativa chega a ser doentio.

Mas não tão doentio quanto a imagem de Jesus batendo no traseiro de uma criança... para isso só uma imagem me vem à cabeça:

domingo, 29 de abril de 2012

O cristianismo mudou de novo?

Ainda sobre o vídeo do debate entre Richard Dawkins e o cardeal George Pell, postado no tópico anterior, ainda podemos fazer algumas colocações interessantes.

Por exemplo, aos 41 minutos, um garoto faz a seguinte pergunta:

"Eu sou ateu. O que você acha que vai acontecer quando eu morrer, e como você sabe disso?" - Mathew Thompson

O cardeal deu uma enrolada na resposta, mas basicamente disse que aqueles que morrem serão julgados de acordo com os seus atos malignos, e por isso um ateu poderia ir para o paraíso. Deve-se ficar claro que o cardeal Pell não é qualquer um dentro do círculo da igreja; há rumores de que ele pode estar na restrita lista dos pretendentes a papa no próximo conclave.

Portanto, ver uma resposta ecumênica como essa não é pouca coisa, ainda mais com os recentes ataques do Papa Ratzinger ao ateísmo e à secularização da Europa, atribuindo inclusive o nazismo ao movimento ateu.

Mas o mais importante - e lamentavelmente essa oportunidade não foi aproveitada por Dawkins - é que essa idéia contraria totalmente os ensinamentos de Cristo.

Jesus Cristo foi bem claro ao dizer (ou, pelo menos nas palavras atribuídas a ele, e já vimos que algumas delas claramente são fraudes) que a salvação só vem por meio daqueles que acreditam nele:

Marcos 16:16 Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado.

E ainda em outras passagens:

Mateus 10:33  Mas qualquer que me negar diante dos homens, eu o negarei também diante de meu Pai, que está nos céus.

João 3:36  Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece.

João 8:24  Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados.

João 14:6  Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.


Enfim, parece bem claro que os ensinamentos de Jesus dizem que nenhum descrente será capaz de entrar no "reino dos céus".

Esse ensinamento foi reforçado na igreja católica pelo Concílio IV de Latrão, em 1215, sancionado pelo papa Inocêncio III, que estabeleceu o dogma "Extra Ecclesiam nulla salus", ou seja, fora da igreja não há salvação. Esse é um dogma ex cathedra, quando o papa faz o uso de sua infalibilidade para definir uma doutrina com suprema autoridade, e não pode ser mudada.

Como eu queria estar no lugar do Dawkins nesse momento! Queria ver o cardeal piando quando eu perguntasse se o dogma da igreja mudou, ou, se é apenas uma opinião pessoal dele que os ateus podem ser salvos, então perguntaria se ele discorda de um dogma oficial de sua própria igreja e por quê.

É uma pena, mas enfim, talvez algum católico - talvez até algum padre - apareça por aqui e nos esclareça essa dúvida. :D

sábado, 14 de abril de 2012

Adulterações das Escrituras por Motivos Teológicos - III

Continuaremos com o nosso estudo sobre as adulterações nas escrituras por motivações teológicas. Se você ainda não viu, pode acompanhar a introdução na parte I e as adulterações anti-docentistas na parte II.

Os cristãos gostam de pensar que o cristianismo primitivo era uma unidade coesa de idéias, com apenas alguns problemas localizados os quais podiam ser tratados com algumas simples cartas e admoestações dos apóstolos. A verdade é que era bem o oposto disso. Haviam várias formas de cristianismo completamente conflitantes entre si, cada um alegando ser "o" verdadeiro cristianismo, e cada um com a sua própria literatura, muitas vezes com passagens forjadas ou falsificados em sua totalidade. Essa era uma forma de tentar persuadir os fiéis a se manterem na "religião correta", e se afastar das "heresias", deixando bem claro que por religião correta é a "minha crença", e heresia é a sua.

Veremos agora um outro grupo de cristãos, que se encontravam no lado diametralmente oposto aos docentistas.

Os cristãos adocionistas

Um grande número de grupos cristãos no segundo e terceiros séculos da era comum adotavam uma visão "adocionista" de Cristo. Essa visão é chamada assim porque os seus fiéis acreditavam que Jesus não era divino mas 100% humano de carne e osso, ao qual deus havia "adotado" na hora do seu batismo.

Um grupo específico de cristãos judeus que ganhou notoriedade na época eram os chamados ebionitas. Não se sabe ao certo por que receberam esse nome, mas acredita-se que pode ter sido originado da palavra grega "ebyon", que significa pobre.

Para pertencer a esse grupo, o fiel teria que ser como Jesus, ou seja, judeu. Teria que ser circuncidado se fosse homem, e seguir todas as 613 leis de Moisés. Certamente que não acreditavam na trindade, já que Jesus era um ser humano comum, nascido de uma mulher comum (nascimento não-virginal), e viveu em uma  lar judeu comum.

Para eles, Jesus era apenas um rigoroso seguidor da lei mosaica, e, por causa de ser extremamente justo aos olhos de deus, foi adotado por ele durante o seu batismo, onde se ouviu uma voz dizendo que ele era o seu filho unigênito. Desse momento em diante Jesus seguiu a missão dada por deus, que era morrer na cruz como um sacrifício pela humanidade. Depois, deus o ressuscitou, e o elevou até os céus, onde está aguardando retornar para julgar as nações.

Assim, de acordo com o ebionitas, Jesus não pré-existiu, não nasceu de uma virgem, não era divino em si. Ele era apenas um ser humano especial, escolhido por deus para ser seu filho adotivo, e executar uma missão aqui na Terra.

Adulterações anti-adocionistas das escrituras

Em resposta a essas alegações, cristãos proto-ortodoxos insistiam que Jesus não era um mero ser humano, mas realmente divino, o próprio deus encarnado. Ele nasceu sim de uma virgem, e era superior aos homens porque ele era diferente por natureza, e no seu batismo deus não fez dele o seu filho adotivo, mas apenas afirmou que ele era e sempre foi de fato seu filho unigênito, desde o início dos tempos.

Algumas vezes, alegações não eram suficientes, e os cristãos proto-ortodoxos se valiam de adulterações das escrituras para validar ou enfatizar seus pontos de vista.

Quem se manifestou em carne?

Já foi discutido aqui uma passagem em que um erro de copista em I Timóteo 3:16 pode ter implicações teológicas sérias por mudar drasticamente a interpretação da passagem, alterando a palavra omicron-sigma (ΟΣ), que significa "aquele", por teta-sigma (ΘΣ) com um traço em cima, uma abreviatura para a palavra "Deus".

1 Timóteo 3:16 Evidentemente, grande é o mistério da piedade: Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em espírito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória. (Versão João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada)

1 Timóteo 3:16 E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória.  (Versão João Ferreira de Almeida Corrigida e Revisada, Fiel)

Agora nós já podemos entender o por quê. Provavelmente o escriba achou uma boa oportunidade de combater idéias adocionistas, fortalecendo a idéia de que Jesus era de fato Deus manifestado em carne.

Pai? Que pai?

Outra modificação anti-adocionista aconteceu em Lucas, na parte José e Maria levam o bebê Jesus ao tempo e Simeão o abençoa, e é dito que "seu pai e sua mãe estavam maravilhados do que se dizia dele". Peraí, seu pai? Como é que o texto diz que José é o pai de Jesus se ele nasceu de uma virgem? Assim, não é surpresa que em muitos manuscritos os escribas alteraram o texto para eliminar uma possível interpretação adocionista, alterando para "José e sua mãe", como podemos ver aqui:

Lucas 2:33 E estavam o pai e a mãe do menino admirados do que dele se dizia. (Versão João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada)

Lucas 2:33 
Enquanto isso, seu pai e sua mãe se admiravam das coisas que deles se diziam. (Versão João Ferreira de Almeida Atualizada)

Lucas 2:33 E José, e sua mãe, se maravilharam das coisas que dele se diziam. (Versão João Ferreira de Almeida Corrigida e Revisada, Fiel)

Lucas 2:33 And Joseph and his mother marvelled at those things which were spoken of him. (Versão King James)


Um fenômeno similar ocorreu em Lucas 2:43, quando José, Maria e Jesus vão a um festival em Jerusalém, e ao voltarem, é dito que Jesus ficou para trás sem que seus pais soubessem. Mas José não era de fato o pai de Jesus, então vários escribas "corrigiram" isso, alterando o texto para "José e sua mãe", como podemos ver ainda em algumas versões da bíblia.

Lucas 2:43 Terminados os dias da festa, ao regressarem, permaneceu o menino Jesus em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem. (Versão João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada)

Lucas 2:43 e, terminados aqueles dias, ao regressarem, ficou o menino Jesus em Jerusalém sem o saberem seus pais; (Versão João Ferreira de Almeida Atualizada)

Lucas 2:43 E, regressando eles, terminados aqueles dias, ficou o menino Jesus em Jerusalém, e não o soube José, nem sua mãe. (Versão João Ferreira de Almeida Corrigida e Revisada, Fiel)

Lucas 2:43 And when they had fulfilled the days, as they returned, the child Jesus tarried behind in Jerusalem; and Joseph and his mother knew not of it. (Versão King James) 


Essas alterações não foram acidentais, elas tinham um propósito, que era o de evitar uma "interpretação errada" por parte de cristãos adocionistas.

"Tu és meu filho, e hoje te gerei"

Uma das mais intrigantes variações anti-adocionistas nos manuscritos ocorre justamente na hora do batismo de Jesus, onde os adocionistas insistem que foi nessa hora em que deus o escolheu como filho adotivo. 

No evangelho de Lucas e de Marcos, quando Jesus é batizado, os céus se abrem, o espírito santo desce na forma de uma pomba, e escuta-se uma voz nos céus. Na maioria dos manuscritos, a voz em Lucas diz a mesma coisa que em Marcos, "tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo". No entanto, em um antigo manuscrito grego e em vários manuscritos latinos, em Lucas é dito algo bem diferente: "tu és meu Filho, e hoje eu te gerei".

Hoje eu te gerei! Não é extremamente sugestivo que Jesus se tornou o Filho de Deus na hora do seu batismo?

Mas então, qual das duas formas é a original? A vasta maioria dos manuscritos gregos traz a forma tradicional,  "tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo", então podemos ser tentados a achar que essa é a forma correta e a outra a alteração. O problema é que a outra versão,  "tu és meu Filho, e hoje eu te gerei", é a mais citada entre os pais da igreja no período anterior ao da produção da maioria dos manuscritos que temos hoje. É citada no segundo e terceiro séculos em toda a parte em Roma, Alexandria, norte da África, Palestina, Gales, Espanha. Em quase todas instâncias, é a forma  "tu és meu Filho, e hoje eu te gerei" que é usada!

E não é o fato de haver mais manuscritos que automaticamente torna a passagem mais confiável. Como a passagem em Lucas destoa da de Marcos, é possível que os escribas tentassem harmonizá-las, eliminando a contradição, ao mesmo tempo em que combatem uma possível interpretação adocionista.

Único Filho ou único deus?

Uma última alteração anti-adocionista que veremos aqui pode ser encontrada no primeiro capítulo do evangelho de João. O livro começa com o famoso prólogo: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus".

Ao chegar no versículo 18, duas variantes são encontradas:

João 1:18 Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou. (Versão João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada) 

João 1:18 Ninguém jamais viu a Deus. O Deus unigênito, que está no seio do Pai, esse o deu a conhecer. 
(Versão João Ferreira de Almeida Atualizada) 

João 1:18 Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou. (Versão João Ferreira de Almeida Corrigida e Revisada, Fiel) 

João 1:18 No man hath seen God at any time, the only begotten Son, which is in the bosom of the Father, he hath declared him. 
(Versão King James) 

Qual é a correta, o "Deus unigênito", ou o "Filho unigênito"? Os melhores e mais antigos manuscritos Alexandrinos indicam que é a primeira, "Deus unigênito". Mas é interessante que essa forma raramente é encontrada em manuscritos não-alexandrinos. É possível que essa variante tenha se tornado popular apenas em Alexandria por algum escriba com idéias anti-adocionistas. Isso explicaria por que a vasta maioria dos manuscritos encontrados em todos os outros lugares não usa "Deus unigênito", mas sim "Filho unigênito".

Além disso, João chama Jesus de "Filho unigênito" em vários outros lugares, mas nunca se refere a "Deus unigênito". É até difícil entender o que isso significa ao certo. Por "unigênito" entende-se filho único, e chamar um Deus de unigênito significa que esse Deus teve um pai, e portanto não pode haver um único Deus.

É mais provável, portanto, que essa passagem foi alterada por algum escriba alexandrino que não estava confortável com o status dado a Jesus, e decidiu mudar isso. Assim, Jesus não é um mero Filho unigênito, e sim o próprio Deus unigênito, provavelmente para usar contra cristãos adocionistas.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Adulterações das Escrituras por Motivos Teológicos - II


Cristãos docentistas

Como vimos brevemente na parte anterior, Marcion tinha uma visão muito peculiar de cristianismo. Ele chegou à conclusão – muito coerente, por sinal – de que o deus do Antigo Testamento, cheio de ira e vingança, não poderia ser o mesmo deus do Novo; tratam-se de dois deuses diferentes, com o deus de Israel sendo um deus menor, inferior. Ele criou esse mundo, escolheu Israel como seu povo, exigiu sacrifícios e obrigou a manter todo o rigor da lei mosaica para perdoar os pegados. Dessa forma, o deus de Jesus, do perdão e do amor, viu a situação dos humanos, e enviou Jesus para a nossa salvação.

Como Jesus não foi criado por esse deus inferior, que criou esse mundo, ele não poderia ter um corpo material. Ele não poderia ter nascido, nem poderia sentir fome, nem sede, nem dor. Ele também não poderia morrer de verdade. Ele apenas aparentava ser humano. Assim, em um aparente sacrifício, o deus de Israel aceitou sua “morte” como pagamento dos pecados. E assim a humanidade foi salva.

Então Jesus, segundo Marcion, era 100% divino e 0% humano. Os que acreditavam nisso eram chamados “docentistas”. O nome vem do grego DOKEO, que significa “aparentar”, “parecer”. Como ele era deus, não poderia ser um homem, ele apenas aparentava ser.

Infelizmente nenhum dos escritos de Marcion sobreviveu até os dias de hoje, mas sabe-se que ele foi uma grande ameaça aos cristãos “ortodoxos” de sua época (proto-ortodoxo seria o nome mais apropriado). Sabemos disso porque muitos dos pais da igreja escreveram sobre ele, como Irineu e Tertuliano, citando-o palavra por palavra, com as devidas refutações. Tertuliano chegou a escrever um livro de cinco volumes chamado “Against Marcion” (Contra Marcion).

Cristãos proto-ortodoxos criticavam duramente as idéias de Marcion, pois se Jesus não fosse plenamente humano, então não poderia sofrer, não teria seu sangue derramando, e seu sacrifício humano seria inútil. Sua “morte aparente” não serviria para nada. Não, ele nasceu de verdade, cresceu de verdade, sofreu de verdade, morreu, ressuscitou, e está sentado no céu aguardando voltar, fisicamente, em toda sua glória.

No entanto, escrever tratados não era a única maneira que os cristãos proto-ortodoxos tinham para refutar idéias que eles consideravam heresias: eles podiam fazer alterações diretamente nas escrituras.

Adulterações anti-docentistas das escrituras

O debate sobre as idéias docentistas influenciou os escribas que copiavam os livros que eventualmente entraram para o Novo Testamento. Alguém que quisesse minar as idéias docentistas teria que alterar os textos de modo a incluir aspectos humanos a Jesus. Veremos a seguir quatro passagens que são consideradas inserções posteriores, provavelmente por motivações anti-docentistas, pois elas sempre enfatizam que Jesus era real, de carne, osso e sangue. Elas não estão presentes nos manuscritos mais antigos, e sua ausência é difícil de explicar. Não pode ser usada a desculpa de ser homeoteleuto (quando a repetição de palavras com fonética similar pode induzir ao erro). Todas as passagens são do livro de Lucas, que, como vimos, era o único evangelho usado por Marcion.

Jesus suando sangue

A primeira passagem que veremos é aquela onde Jesus se encontra no monte das oliveiras momentos antes de ser preso. Após encorajar os seus discípulos a “orar, para que não entrem em tentação”, ele se afasta, se ajoelha e reza: “Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua”:

Lucas,22:39 E, saindo, foi, como de costume, para o monte das Oliveiras; e os discípulos o acompanharam.
Lucas,22:40Chegando ao lugar escolhido, Jesus lhes disse: Orai, para que não entreis em tentação.
Lucas,22:41Ele, por sua vez, se afastou, cerca de um tiro de pedra, e, de joelhos, orava,   
Lucas,22:42dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua.

Em seguida, vem a parte que é considerada pelos estudiosos como uma inserção posterior; ela não está presente em muitos nos melhores e mais antigos manuscritos que possuímos, os Alexandrinos. Algumas bíblias admitem isso usando colchetes e notas de rodapé. Nessa passagem, Jesus é confortado por um anjo, e fica tão angustiado que começa a suar sangue:

Lucas,22:43[Então, lhe apareceu um anjo do céu que o confortava.
Lucas,22:44E, estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra.]

Após isso, Jesus se levanta, retorna aos discípulos e os encontra dormindo. Ele repete a primeira instrução e em seguida aparece Judas com a multidão para prendê-lo:

Lucas,22:45Levantando-se da oração, foi ter com os discípulos, e os achou dormindo de tristeza,
Lucas,22:46e disse-lhes: Por que estais dormindo? Levantai-vos e orai, para que não entreis em tentação.
Lucas,22:47Falava ele ainda, quando chegou uma multidão; e um dos doze, o chamado Judas, que vinha à frente deles, aproximou-se de Jesus para o beijar.

Existem outros argumentos que sugerem que os versículos 43 e 44 não pertenciam ao texto original. Por exemplo, o estilo de escrita não se parece com o que Lucas utilizava. Existem palavras ali que não são usadas nenhuma outra vez nem em Lucas nem em Atos dos Apóstolos (ambos os livros são considerados escritos pelo mesmo autor), tais como “agonia”, “suor”, “gotas”.

Outro argumento é que existe nesse episódio uma estrutura lingüística que parece deliberada, chamada de “quiasma”, que ocorre quando a primeira sentença corresponde à última, a segunda corresponde à penúltima, etc. A intenção é focar a atenção do leitor ao centro da passagem como ponto principal.

Nesse caso, vemos que sem a passagem duvidosa o quiasma funciona perfeitamente: Jesus pede que “orem, para não cair em tentação”, se afasta deles, se ajoelha, e ora. O centro da passagem se torna a própria oração de Jesus, pedindo que a vontade de deus seja feita. Em seguida, termina a oração, se levanta, volta para os discípulos e, ao encontrá-los dormindo, repete a instrução “orem, para que não entrem em tentação”.

A intenção do autor é clara, intensificar a oração de Jesus e facilitar a sua interpretação: Jesus pede para seus discípulos orarem para afastar as tentações. Em seguida, ele próprio ora para deus afastar dele esse cálice, mas que mesmo assim que a sua vontade seja feita. E o que acontece quando ele volta?  Seus discípulos justamente ao invés de orar, caíram em tentação e dormiram. Ao ver os inimigos, fugiram. Jesus, que permaneceu orando, obedeceu à vontade de deus e foi para o martírio.

Com a adição das passagens duvidosas o quiasma é completamente destruído. O centro da passagem se torna a agonia de Jesus, uma agonia tão grande que fez seu suor se transformar em sangue. Ao invés de enfatizar que a vontade de deus deve ser feita, enfatizou que a oração de Jesus não serviu em nada para acalmar sua agonia.

Essa passagem simplesmente não parece se encaixar na narrativa, e o motivo é muito simples: ela foi inserida posteriormente. O motivo, como nós vimos, pode ser para combater idéias docentistas. Curiosamente essa passagem foi utilizada por cristãos proto-ortodoxos como Justino, Irineu e Hippolytus para refutar a idéia de que Jesus não era um ser humano real, já que eles representavam tão nitidamente o sofrimento humano e agonia de Jesus.

O sangue derramado “por você”

Uma das mais famosas passagens da bíblia, recitada em todas as missas, também não está presente nos manuscritos mais antigos, tanto gregos quanto na versão em latim. É aquela em que Jesus está na última ceia:

Lucas,22:17Recebendo um cálice, ele deu graças e disse: "Tomem isto e partilhem uns com os outros.
Lucas,22:18Pois eu lhes digo que não beberei outra vez do fruto da videira até que venha o Reino de Deus".
Lucas,22:19Tomando o pão, deu graças, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: "Isto é o meu corpo dado em favor de vocês; façam isto em memória de mim".
Lucas,22:20Da mesma forma, depois da ceia, tomou o cálice, dizendo: "Este cálice é a nova aliança no meu sangue, derramado em favor de vocês.
Lucas,22:21"Mas eis que a mão daquele que vai me trair está com a minha sobre a mesa.

Pode parecer estranho, por causa da familiaridade do texto, porém toda a parte em destaque, desde “dado em favor de vocês”, até “derramado em favor de vocês”, é espúria. Nos manuscritos mais antigos, Jesus simplesmente diz “Isto é o meu corpo. Mas eis que a mão daquele que vai me trair está com a minha sobre a mesa.” Até a bíblia Nova Versão Internacional admite isso em suas notas de rodapé.

Uma adição como essas é muito mais fácil de explicar do que uma remoção. Por que um escriba removeria toda essa parte? Não faria sentido. A adição dela, pelo contrário, é bastante conveniente, já que pode ser usada contra os docentistas ao mostrar que Jesus de fato tinha corpo, tinha sangue, e foi derramado de verdade.

Outra curiosidade, essa adição além de tudo não representa o entendimento que o escritor de Lucas tinha a respeito da morte de Jesus. Por mais incrível que possa parecer, nunca, em nenhum outro lugar do livro de Lucas e Atos, é indicado que a morte de Jesus serve para perdoar os pecados. Inclusive onde essa indicação ocorre em Marcos (a fonte usada em Lucas), Lucas altera as palavras ou as elimina. Isso por si só já é assunto para outro tópico, mas quem quiser, compare Marcos 10: 45 com Lucas 22: 24-30  e Marcos 15:39 com Lucas 23: 47, só para ver alguns exemplos.  Lucas simplesmente interpretava a morte de Jesus de outra forma. Para ele, a morte de Jesus serve para fazer as pessoas reconhecerem a sua culpa perante deus (já que ele morreu mesmo sendo inocente). Assim que as pessoas reconhecerem seus pecados, elas se voltam para deus em arrependimento, e seus pecados são perdoados. Podemos ver essa interpretação, por exemplo, nos capítulos 3, 4 e 13 de Atos dos Apóstolos. Para Lucas, não é a morte de Cristo que traz a salvação, e sim o arrependimento pela culpa e o reconhecimento dos pecados.

Novamente, uma adição posterior provocada por uma interpretação diferente dos cristãos proto-ortodoxos destoou a intenção original do autor, e a motivação novamente foi para dar humanidade a Jesus Cristo, provavelmente para contrapor idéias docentistas.

Os lençóis que ficaram para trás

Outro verso que pode ter sido adicionado por cristãos proto-ortodoxos ocorre em Lucas 24: 12, logo após Jesus ser ressuscitado. Algumas mulheres seguidoras de Jesus foram ao sepulcro e, encontrando ele vazio, dois homens falaram que Jesus não estava mais lá, porque ressuscitou. Elas voltam para os discípulos, que não acreditaram, chamando suas histórias de “desvarios”. Então, em alguns manuscritos, encontra-se essa passagem:

Lucas,24:12Pedro, porém, levantando-se, correu ao sepulcro e, abaixando-se, viu só os lençóis ali postos; e retirou-se, admirando consigo aquele caso.

Novamente, esse verso não está presente nos manuscritos mais antigos. Novamente, ele possui palavras não usadas em nenhum outro lugar em Lucas (por exemplo, é usado outra palavra para “lençóis” em Lucas 23: 53). Novamente, é difícil explicar por que alguém removeria essa passagem. Agora, para acrescentá-la há justificativas plausíveis: demonstra que Jesus não era nenhum “fantasma”, que ele era de carne e osso, apoiando muito bem a causa anti-docentista dos cristãos proto-ortodoxos.

Elevado ao céu?

A última passagem que veremos nesse estudo encontra-se no final do livro de Lucas:

Lucas,24:50 E levou-os fora, até Betânia; e, levantando as suas mãos, os abençoou.
Lucas,24:51 E aconteceu que, abençoando-os ele, se apartou deles e foi elevado ao céu.

A parte final, “e foi elevado ao céu”, é uma inserção que se encontra em apenas alguns manuscritos antigos, inclusive em um dos melhores manuscritos que temos preservado até hoje, o Codex Sinaiticus. Essa é uma adição significante porque enfatiza a forma física de Jesus em sua ascensão aos céus, ao invés do insípido “se apartou deles”.

No entanto, é difícil acreditar essa passagem fazia parte do original escrito pelo autor de Lucas, já que ele também escreveu o livro de Atos dos Apóstolos, e nesse outro livro também há um relato da ascensão de Cristo, porém bem diferente... nele, Jesus subiu aos céus 40 dias após a ressurreição!

Será que o autor esqueceu o que escreveu no final de um livro, para se contradizer logo no início de outro? Certamente que não. Trata-se de uma adição posterior, com o intuito de enfatizar um ponto de vista específico, ou seja, uma adulteração do texto original com motivações teológicas anti-docentistas.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Adulterações das Escrituras por Motivos Teológicos - I


Durante o segundo e terceiro séculos da era comum – aproximadamente no tempo em que estavam sendo escritos os últimos livros que ainda formariam o que chamamos hoje de Novo Testamento – havia uma particularmente rica diversidade teológica entre os primeiros cristãos.

Na verdade, essa diversidade era tão grande que muitos dos que se consideravam cristãos naquela época jamais seriam chamados cristãos hoje.

Durante essa época, além dos cristãos que acreditavam que havia um único deus, criador de tudo, também havia cristãos que acreditavam na existência de dois deuses, o deus do Antigo Testamento, o deus de Israel, o deus da ira, da guerra e da vingança, e o deus do Novo Testamento, o deus de Jesus, do amor, da paz e do perdão. O maior representante desse tipo de cristianismo chamava-se Marcion, uma figura importante que veremos com mais detalhes a seguir. Além disso, havia os cristãos gnósticos que acreditavam na existência de 12 deuses. Outros diziam ser 30. Outros ainda, 365.

Alguns desses grupos acreditavam, como os cristãos de hoje, que Jesus era 100% humano e 100% deus. Outros, que Jesus era 100% homem e 0% deus, mais ou menos como as Testemunhas de Jeová. Outros ainda achavam que Jesus era 0% humano e 100% divino. Existiam ainda aqueles que tinham a curiosa crença de que Jesus Cristo era composto por duas entidades distintas que dividiam o mesmo corpo: o humano Jesus e o divino Cristo.

Alguns grupos achavam que a morte de Jesus era o único caminho para a salvação. Outros, que a morte de Jesus não tinha nada a ver com salvação alguma. E outros ainda achavam que Jesus nem mesmo tinha morrido.

Enfim, havia uma profusão de crenças totalmente distintas, cada uma considerando a si próprio o verdadeiro e único cristianismo tal como foi ensinado por Jesus Cristo, enquanto todas as outras não passavam de heresias, deturpações.

Alguém pode se perguntar: Por que simplesmente não liam o Novo Testamento e tiravam as dúvidas? Oras, acontece que ainda não havia Novo Testamento. Para falar a verdade, alguns dos livros que compõem o NT nem haviam sido escritos ainda, além de que haviam muitos outros livros que jamais entraram na bíblia, mas que na época eram considerados escritos originais dos apóstolos: outros evangelhos (como o evangelho de Paulo, Pedro, Maria, Judas, e até Jesus), atos (como os atos de Paulo, atos de Pedro), cartas (como III Coríntios), e apocalipses, muito diferentes dos que conhecemos agora.

Cada grupo escolhia os livros que considerava originais – e muitas vezes deturpavam ou fraudavam completamente os textos de acordo com seus propósitos. Não havia um acordo universal até o concílio de Nicéia. Mas, até lá, era cada um por si.

O primeiro cristão que temos registro que fez uma tentativa de reunir um cânon oficial foi Marcion, de quem falamos antes. Mas sua “bíblia” era bem diferente da que conhecemos hoje. Como para ele o deus do Antigo Testamento era um deus de ódio e vingança, ele era considerado um deus menor, inferior, e, portanto, não era o deus verdadeiro. Por isso, nenhum dos livros do AT foram incluídos. Marcion considerava também apenas Paulo como o verdadeiro discípulo de Jesus. Todos os outros discípulos, segundo ele, não entenderam a mensagem verdadeira de Cristo. Assim, em seu cânon, Marcion incluiu apenas as 10 cartas de Paulo que tinha à disposição, ou seja, todas as do Novo Testamento menos I e II Timóteo, e Tito. Marcion incluiu também apenas um evangelho, uma versão alterada de Lucas. E era isso, essa era a sua bíblia.

Marcion, como muitos daquela época, não hesitou em alterar as partes de sua bíblia que considerava erradas. Assim, ele acomodava suas escrituras de acordo com suas crenças.

Será que essa prática também foi usada nos livros que hoje compões a bíblia oficial? Certamente que sim. Não apenas Marcion, mas também aqueles outros cristianismos diferentes eram uma ameaça constante ao “verdadeiro cristianismo”, e assim as partes das escrituras que pareciam apoiar as idéias de Marcion, dos gnósticos, e dos outros eram alteradas pelos escribas. Sabemos disso porque essas alterações não estão presentes nos manuscritos mais antigos. E, analisando criticamente o contexto histórico, entendemos por que elas foram alteradas.

Nas próximas partes desse estudo veremos algumas passagens que os estudiosos consideram adulterações das escrituras mais antigas para enfraquecer os pontos de vista contrários e fortalecer os seus, ou seja, adulterações por motivações teológicas.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Quem pediu a Jesus pelos melhores lugares no céu?

Tiago e João:

Marcos,10:35E aproximaram-se dele Tiago e João, filhos de Zebedeu, dizendo: Mestre, queremos que nos faças o que te pedirmos.
Marcos,10:36E ele lhes disse: Que quereis que vos faça?
Marcos,10:37E eles lhe disseram: Concede-nos que na tua glória nos assentemos, um à tua direita, e outro à tua esquerda.
Marcos,10:38Mas Jesus lhes disse: Não sabeis o que pedis; podeis vós beber o cálice que eu bebo, e ser batizados com o batismo com que eu sou batizado?

A mãe de Tiago e João:

Mateus,20:20Então se aproximou dele a mãe dos filhos de Zebedeu, com seus filhos, adorando-o, e fazendo-lhe um pedido.
Mateus,20:21E ele diz-lhe: Que queres? Ela respondeu: Dize que estes meus dois filhos se assentem, um à tua direita e outro à tua esquerda, no teu reino.
Mateus,20:22Jesus, porém, respondendo, disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu hei de beber, e ser batizados com o batismo com que eu sou batizado? Dizem-lhe eles: Podemos.

É claro que a resposta padrão mais conhecida é que ambas as situações aconteceram: os dois irmãos pediram, e a mãe também pediu. Sim, é possível, mas não é o que nenhum dos relatos diz que aconteceu. Cria-se um evangelho novo, diferente de qualquer um que foi escrito, para poder acomodar a todos.

Se fosse mesmo pedido pelos melhores lugares em duas ocasiões distintas, será que Jesus não teria dito algo como: "Já lhes disse que não podeis beber o cálice que eu bebo"? Tal insistência não seria digna de nota por algum dos escritores bíblicos? No entanto nenhum deles escreveu sobre isso.

O mais provável que pode ter acontecido é algo diferente: sabe-se que Marcos foi o primeiro evangelho a ser escrito, no qual Mateus e Lucas usaram como base e como fonte, alterando algumas passagens como achavam necessário - e assim criando muitas das contradições que vemos hoje.

Quem escreveu Mateus e Lucas dava o seu "toque particular" nos livros, adaptando o evangelho de Marcos conforme achavam mais conveniente e de acordo com a sua visão. Nesse caso, o escritor do livro de Mateus achou por bem retirar a frivolidade e ganância de dois discípulos de Jesus ao pedir os melhores lugares no paraíso, e passou para a mãe deles. Ficava menos "feio" para eles dessa forma. Mas ao livrar a barra dos discípulos, acabou gerando mais uma contradição. :D

Quando Jesus nasceu?

Natal... Nada como celebrar o nascimento de Jesus... com uma contradição sobre o nascimento de Jesus! Porque nem nisso a bíblia concorda entre si, pois existem irreconciliáveis problemas históricos. Quando Jesus nasceu?

Nos tempos do rei Herodes:

Mateus,2:1Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia, em dias do rei Herodes, eis que vieram uns magos do Oriente a Jerusalém.

Nos tempos de César Augusto, quando Quirino era governador da Síria:

Lucas,2:1Naqueles dias, foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população do império para recensear-se.
Lucas,2:2Este, o primeiro recenseamento, foi feito quando Quirino era governador da Síria.
Lucas,2:3Todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade.
Lucas,2:4José também subiu da Galiléia, da cidade de Nazaré, para a Judéia, à cidade de Davi, chamada Belém, por ser ele da casa e família de Davi,

Qual o problema? O problema é que - diferentemente de Jesus - as vidas de Herodes e do governador Quirino foram muito bem documentadas por historiadores independentes como Tácito e Josefo, e sabe-se que Herodes morreu em 4 a.c., enquanto Quirino não se tornou governador antes de 6 d.c., portanto uma diferença de dez anos de erro!

Também não há relato de nenhum historiador dizendo que houve um genocídio de crianças por Herodes, e nem um censo feito por César Augusto obrigando as pessoas a voltar para a terra de seus ancestrais.

A própria idéia desse censo é ridícula e impraticável. Alguém já imaginou nas implicações de tal decreto? Davi viveu cerca de mil anos antes de José! Fazer as pessoas voltar para onde seus ancestrais viveram há tantos séculos atrás provocaria uma movimentação massiva de pessoas. Se todos do império romano tivessem que voltar para a terra de seus antepassados o deslocamento de pessoas seria absurdo! Imagine se tal idéia fosse proposta hoje, para onde você iria? Você não ficaria indignado? E tal projeto monumental não seria mencionado por nenhum historiador? E qual a finalidade de tamanha loucura? Por que fazer as pessoas voltar para suas terras de origem para realizar um censo??

A resposta é que tal censo jamais existiu. O escritor de Lucas inventou essa desculpa porque queria que Jesus nascesse em Belém para o cumprimento de uma profecia que dizia que o messias viria de lá.

Só que ele acabou indo longe demais na mentira e inventou essa história, que além de absurda é um enorme erro histórico. :D

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Jesus permaneceu calado no seu julgamento?

Permaneceu calado:

Mateus e Marcos concordam que Jesus permaneceu quieto em seu discurso, respondendo às perguntas de Pilatos apenas poucas palavras:

Mateus,27:11 Jesus estava em pé ante o governador; e este o interrogou, dizendo: És tu o rei dos judeus? Respondeu-lhe Jesus: Tu o dizes.
Mateus,27:12 E, sendo acusado pelos principais sacerdotes e pelos anciãos, nada respondeu.
Mateus,27:13 Então, lhe perguntou Pilatos: Não ouves quantas acusações te fazem?
Mateus,27:14 Jesus não respondeu nem uma palavra, vindo com isto a admirar-se grandemente o governador.

Marcos,15:3 Os chefes dos sacerdotes o acusavam de muitas coisas.
Marcos,15:4 Então Pilatos lhe perguntou novamente: “Você não vai responder? Veja de quantas coisas o estão acusando”.
Marcos,15:5 Mas Jesus não respondeu nada, e Pilatos ficou impressionado.

É dito entre os cristãos que esse é inclusive o cumprimento de uma profecia em Isaías 53,7:

Isaías,53:7Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca.

Não, bateu altos papo cabeça com Pilatos:

No entanto João ignora tudo isso e conta uma história completamente diferente, e mostra um Jesus tagarela e conversador:

João,18:33Tornou, pois, a entrar Pilatos na audiência, e chamou a Jesus, e disse-lhe: Tu és o Rei dos Judeus?
João,18:34Respondeu-lhe Jesus: Tu dizes isso de ti mesmo, ou disseram-to outros de mim?
João,18:35Pilatos respondeu: Porventura sou eu judeu? A tua nação e os principais dos sacerdotes entregaram-te a mim. Que fizeste?
João,18:36Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui.
João,18:37Disse-lhe, pois, Pilatos: Logo tu és rei? Jesus respondeu: Tu dizes que eu sou rei. Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz.
João,18:38Disse-lhe Pilatos: Que é a verdade? E, dizendo isto, tornou a ir ter com os judeus, e disse-lhes: Não acho nele crime algum.

Fica claro: quem quer que seja que escreveu o livro de João não tinha o menor interesse de harmonizar com os demais evangelhos.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O calvário dos homossexuais

O movimento contra os direitos dos homossexuais parece crescer em nível mundial.

Na Nigéria políticos pretendem aprovar leis homofóbicas que preveem até 14 anos de prisão para quem cometer atos homossexuais, e até 10 anos para quem ajudar, proteger ou encobrir homossexuais. Tudo isso com forte apoio de líderes religiosos cristãos e muçulmanos.

O pastor Martin Ssempa, que costuma mostrar vídeos de
homossexuais em atos explícitos na igreja para
impressionar os fiéis, apóia as leis duas na Uganda.

Na Uganda o preconceito é ainda pior. Projetos de lei visam a pena de morte ou prisão perpétua para homossexuais, apesar de pressões internacionais possivelmente possam impedir a aprovação da lei, que, novamente, contam com o apoio dos evangélicos, entre eles o Pastor Martin Ssempa, que costuma mostrar vídeos na igreja de homossexuais em ato explícito e praticando coprofagia.

Na Escócia, protestos contra a legalização do casamento entre homossexuais, encabeçados pelo cardeal Keith O'Brien da igreja católica, e pelo pastor Ann Allen da Church of Scotland (evangélicos e católicos deixam as diferenças de lado e se unem quando é para coibir os direitos dos homossexuais).

Nos Estados Unidos, a organização Christian Right (Direita Cristã) realiza protestos em 49 estados, enquanto vários outros grupos que promovem discursos de ódio aos homossexuais tem sede em várias cidades americanas.

No Brasil, as coisas não são muito diferentes. Aqui um dos maiores representantes anti-gays e um dos que mais faz barulho recentemente é o pastor evangélico Silas Malafaia, que já declarou ser o "inimigo número 1 do movimento gay no Brasil", e que os católicos deviam "entrar de pau e baixar o porrete" em cima dos homossexuais, agora fica fazendo pressão e convocando seus seguidores a mandar e-mails para a câmara dos deputados, para que não aprovem o PL122, que criminaliza a homofobia.

O Twitter de Silas Malafaia em sua cruzada contra o PL 122: Deixou de fora a informação de que os religiosos
também são protegidos pela lei 7.716. Desonestidade ou ignorância?

Em suas postagens no twitter, ele demonstra o quanto é desonesto, ao dizer que o PL122 quer privilegiar os homossexuais, adicionando o gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero à lei 7.716.

O PL 122 não quer dar privilégios a ninguém, ele quer dar os mesmos direitos que outros grupos já possuem e desfrutam. A lei 7.716 é clara ao falar no Artigo 1º:

Art. 1º Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.

Religião está inclusa entre os grupos protegidos pela lei, e o pastor sabe disso, pois ele afirma que conhece a referida lei (nesse caso ou ele é desonesto ou é ignorante, escolha). Independentemente se homossexualidade for comportamental ou não, se é opção ou não (e eu acho que não), não se pode negar que ninguém nasce religioso, que religião é uma escolha, que é comportamental. Mas não vemos o pastor exigindo que se retire a proteção à religião da lei, vemos?

Vemos como o ódio aos homossexuais é tão grande que ele chega a ponto a lutar contra a inclusão de grupos minoritários em uma lei em que ele próprio é beneficiado! Aposto que Jesus ficaria orgulhoso...

Tanto medo e tanto ódio contra os homossexuais tem em comum o fato de serem cristãos usando passagens bíblicas para justificar seus atos. Seria correto dizer que a bíblia é a responsável pela homofobia dos cristãos? Certamente a bíblia é homofóbica, já vimos, por exemplo, que ela ordena que gays devem ser mortos. Mas acredito essa resposta não seja o suficiente.

Seria simplista demais culpar a bíblia pelo ódio dos homofóbicos, até porque existem diversas passagens em que os cristãos simplesmente ignoram ordens expressas da bíblia. Por exemplo, a bíblia ordena pena de morte para quem trabalha no sábado, para membros da própria família que adorem a outros deuses, para mulheres que perdem a virgindade antes do casamento, e obriga às mulheres vítimas de estupro a se casar com o estuprador, e nenhum crente segue essas leis. Por que simplesmente não ignorar as leis que condenam a homossexualidade, assim como eles fazem com todo o resto que não gostam?

Claro que alguém vai dizer que todas as passagens anteriores são do Antigo Testamento, e que Jesus mudou a lei. É engraçado contudo como os cristãos não excitam um minuto usar passagens do AT quando isso é conveniente às suas convicções, mas enfim, eu poderia em resposta dizer aqui a passagem em que Jesus disse que não veio anular a lei, mas não vou.

Pelo contrário, vou mostrar pelo menos uma situação do Novo Testamento em que cristãos também preferem ignorar, por pura conveniência (há outras, muitas outras, que poderiam ser mostradas, mas vamos  nos ater a apenas uma).

Por exemplo, na passagem em que Paulo fala explicitamente para as mulheres ficarem caladas nas igrejas:

1Coríntios,14:34 conservem-se as mulheres caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar; mas estejam submissas como também a lei o determina.
1Coríntios,14:35 Se, porém, querem aprender alguma coisa, interroguem, em casa, a seu próprio marido; porque para a mulher é vergonhoso falar na igreja.

Para Paulo, o simples ato da mulher falar na igreja é vergonhoso!

Em outra passagem, ainda mais contundente, Paulo ordena que as mulheres são obrigadas a usar véu dentro das igrejas. Se não usarem, então que raspem a cabeça, pois é desonra para ela mostrar os cabelos!

1Coríntios,11:5 Toda mulher, porém, que ora ou profetiza com a cabeça sem véu desonra a sua própria cabeça, porque é como se a tivesse rapada.
1Coríntios,11:6Portanto, se a mulher não usa véu, nesse caso, que rape o cabelo. Mas, se lhe é vergonhoso o tosquiar-se ou rapar-se, cumpre-lhe usar véu.

Oras, a própria esposa do Silas, Elizete Malafaia e a sua nora Rachel Malafaia, oram, cantam e profetizam nas igrejas de cabelos descobertos!
Elizete Malafaia, esposa de Silas Malafaia, pregando para
um grupo de jovens. Desobedecer 1 Coríntios 11:5-6 e
1 Coríntios 14:34-35 parece não incomodar o pastor.

Parece que desobedecer essa ordem bíblica não incomoda nem um pouco nem a Silas Malafaia e nem os milhares de crentes que citam a bíblia para condenar os homossexuais, não é mesmo?

Então vemos que na verdade não é questão de seguir ou não a bíblia. O que a bíblia diz, para esses crentes, realmente não importa. O que importa é adaptar a bíblia de acordo com suas convicções pré-estabelecidas, e ignorar as partes que não interessam.

O preconceito existe, então, independentemente do que a bíblia diz. Ela é preconceituosa porque foi escrita em uma época de forte influência preconceituosa, mas não é a razão por trás da homofobia. Apenas é usada para justificar a intolerância, disfarçada de religião.

Enquanto isso, os homossexuais continuam sua luta por seus direitos, para poder fazer aquilo que todas as outras pessoas podem fazer livremente. Eles não querem nada mais que isso. Não querem tirar nenhum direito dos cristãos, nem dos heteros, nem de ninguém. Pelo contrário, são os cristãos que não querem que os gays tenham os mesmos direitos que eles (o que aconteceu como "dar a outra face"?).

Não importa qual o país, se Brasil, EUA ou Uganda, em todos eles os homossexuais correm risco de vida diariamente, apenas por ser o que são. São humilhados, espancados, são negados empregos, são ridicularizados. Lutar por uma lei que os defendessem seria o mínimo que se esperaria de alguém que se considera "cristão", mas estranhamente, o que vemos geralmente é o oposto.

Então, cristãos que se opõem à PL 122, ponham a mão na consciência. Prestem atenção no que vocês estão fazendo. Antes de negar direitos a outras pessoas, pensem se seria isso que Jesus faria. Será que eles aprovariam essa atitude? Ou será que ele colocaria pessoas como o Silas Malafaia entre a "raça de víboras" e os "sepulcros caiados"?

Mateus 5:3 Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus.
Mateus 5:4 Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.
Mateus,5:5 Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.
Mateus,5:6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.
Mateus,5:7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Mateus,5:8 Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.
Mateus,5:9 Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.
Mateus,5:10Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Critério de justiça equivocado I

Mateus 20, 1-15 é popularmente conhecida como a parábola dos trabalhadores da última hora.

Nela, Jesus diz que o reino dos céus é semelhante a um empregador que saiu para contratar trabalhadores em sua vinha. No início do dia, que seria 6 a.m. pelo horário dos judeus, encontrou algumas pessoas e contratou com elas por 1 denário.

Mateus,20:1Porque o reino dos céus é semelhante a um dono de casa que saiu de madrugada para assalariar trabalhadores para a sua vinha.
Mateus,20:2E, tendo ajustado com os trabalhadores a um denário por dia, mandou-os para a vinha.

Saiu depois às 9 a.m., e encontrou mais alguns, e os contratou. Novamente saiu ao meio-dia e às 3 p.m., também encontrando mais trabalhadores e contratando-os. Finalmente, saiu às 5 horas da tarde e contratou mais funcionários por apenas uma hora.

Mateus,20:3Saindo pela terceira hora, viu, na praça, outros que estavam desocupados
Mateus,20:4e disse-lhes: Ide vós também para a vinha, e vos darei o que for justo. Eles foram.
Mateus,20:5Tendo saído outra vez, perto da hora sexta e da nona, procedeu da mesma forma,
Mateus,20:6e, saindo por volta da hora undécima, encontrou outros que estavam desocupados e perguntou-lhes: Por que estivestes aqui desocupados o dia todo?
Mateus,20:7Responderam-lhe: Porque ninguém nos contratou. Então, lhes disse ele: Ide também vós para a vinha

No final do dia, o empregador pagou a todos o mesmo salário, 1 denário, desde o que trabalhou 12 horas até o que trabalhou 1 hora.

Mateus,20:8 Ao cair da tarde, disse o senhor da vinha ao seu administrador: Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, começando pelos últimos, indo até aos primeiros
Mateus.20:9 Vindo os da hora undécima, recebeu cada um deles um denário.
Mateus,20:10 Ao chegarem os primeiros, pensaram que receberiam mais; porém também estes receberam um denário cada um.

Aqueles que trabalharam o dia inteiro, acertadamente, ficaram revoltados ao ver que os que trabalharam apenas 1 hora ganharam o mesmo que eles, ao que Jesus deu uma desculpa esfarrapada de que o dinheiro era dele e por isso podia fazer o que quiser com ele.

Mateus,20:11 Mas, tendo-o recebido, murmuravam contra o dono da casa,
Mateus,20:12 dizendo: Estes últimos trabalharam apenas uma hora; contudo, os igualaste a nós, que suportamos a fadiga e o calor do dia.
Mateus,20:13 Mas o proprietário, respondendo, disse a um deles: Amigo, não te faço injustiça; não combinaste comigo um denário?
Mateus,20:14 Toma o que é teu e vai-te; pois quero dar a este último tanto quanto a ti.
Mateus,20:15 Porventura, não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou são maus os teus olhos porque eu sou bom?

Tudo bem que o dinheiro era do empregador, e pode realmente fazer o que quiser com ele. Só que o empregador disse que iria pagar o preço justo (versículo 4).

Não há como dizer que foi feita justiça ao pagar a mesma coisa para quem trabalhou 12 horas e para quem trabalhou apenas 1 hora. Não tem como, a não ser que a produção tenha sido a mesma, o que não foi o caso (por exemplo, um trabalhador usou uma máquina agrícola que faz em uma hora o trabalho que outro levaria 12 horas).

É óbvio que o critério de justiça nesse caso está equivocado. A explicação da parábola evidencia ainda mais isso: alguém que se dedicou a vida inteira à sua igreja vai ter a mesma recompensa de alguém que matou, roubou e estuprou, mas que se arrependeu no último minuto antes de morrer. Alguém que fez coisas erradas a vida inteira e "aceitou Jesus" antes de morrer está automaticamente perdoado, e terá entrada garantida no céu, sem se preocupar com compensações às vítimas e aos prejuízos e sofrimento que causou.

Dessa forma, um estuprador poderia se encontrar com a sua vítima no paraíso, assassinos de todas as épocas que escaparam impunes receberiam perdão automático, e até mesmo Hitler, se ele - como um bom cristão - pediu perdão um segundo antes de morrer, poderia se encontrar com todos aqueles que assassin.. ops, peraí, a maioria de suas vítimas eram judeus, eles nunca aceitaram Jesus. Nesse caso, Hitler estaria no céu, enquanto suas vítimas estariam no inferno (apesar de ser apenas especulação, é plenamente possível segundo a doutrina cristã).

Isso é que é justiça!!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Jesus não ocultou nada do mundo?

Jesus diz que tem falado francamente ao mundo, e não ocultado nada:

João 18:20 Declarou-lhe Jesus: Eu tenho falado francamente ao mundo; ensinei continuamente tanto nas sinagogas como no templo, onde todos os judeus se reúnem, e nada disse em oculto.

Mas pedia para que seus discípulos não revelassem que ele era o Cristo:

Mateus 16:20 Então, advertiu os discípulos de que a ninguém dissessem ser ele o Cristo.

Fica claro, João relata sobre um Cristo completamente diferente dos outros evangelhos!

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Deturpações proféticas em Mateus IV - Nasceu de uma virgem?

Já vimos que a pessoa que escreveu o evangelho de Mateus gostava de deturpar as escrituras dos judeus para tentar provar que Jesus Cristo era o messias esperado, como em Mateus 2:15, Mateus 2: 16-17, Mateus 27:9,  e em algumas vezes simplesmente inventando escrituras que simplesmente não se encontram em nenhum livro profético da bíblia, como em Mateus 2:22.

Mas nenhuma foi tão descarada e tão mentirosa quando a que fala do nascimento virginal de Cristo, em Mateus 1:23.


Mateus 1:23 Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, o qual será chamado EMANUEL, que traduzido é: Deus conosco. 

A "profecia" se refere a Isaías 7:14: 

Isaías 7:14 Portanto, o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel.

No entanto, a palavra "virgem" é um erro de tradução da palavra hebraica "almah", que significa "jovem moça". "Virgem" na verdade seria "bethula", como é usada nas outras partes do Antigo Testamento. "Almah" não é traduzida por "virgem" em nenhuma outra parte da bíblia inteira.

Além do fato da profecia não ser messiânica. Ela não fala de Jesus - que nunca foi chamado de Emanuel - e nem do messias. Ela se refere a Acaz, que ia entrar em guerra contra Efraim e a Síria. O sinal seria de uma moça que vivia naquela época ficaria grávida em breve, como prova de que Acaz prevaleceria sobre seus inimigos. O nascimento de um menino seria a prova de que Acaz poderia ficar tranquilo. Era esse era o sinal, e não de um Jesus que nasceria centenas de anos depois, quando Acaz já estivesse morto! Basta ler o capítulo para entender isso. Cristãos gostam de mencionar o contexto, mas ignoram completamente que o contexto aqui não tem nada a ver com Jesus.

E mais, se a palavra em questão fosse mesmo "virgem", então haveriam dois nascimentos virginais, o que nem os crentes acreditam que aconteceu.

Provavelmente houve um erro durante a tradução dos manuscritos hebreus para o grego na septuaginta, e o escritor de Matheus, desconhecendo o original hebraico, apenas propagou o erro. Mateus foi escrito para os gentios, que não conheciam as profecias hebraicas tão bem a ponto de reconhecer o erro, que permaneceu até hoje.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Estamos nos últimos dias... há 2000 anos??

É verdade que após a suposta morte de Jesus Cristo cada geração sempre achou que estava vivendo nos últimos dias. Porém os cristãos dos primeiros séculos da era comum devem ter passado por maus bocados ao tentar explicar a demora, já que já vimos que estava escrito que Jesus disse que voltaria enquanto seus seguidores ainda estivessem vivos.

A questão então para Paulo, por exemplo, era tentar explicar por que a demora, já que os fiéis perceberam que as pessoas iam morrendo e nada de Jesus aparecer. E ao invés de dizer a verdade (de que nem em 19 séculos depois Jesus voltaria) Paulo, pelo contrário, também parecia acreditar que vivia nos "últimos dias":

Romanos 16:20 E o Deus da paz, em breve, esmagará debaixo dos vossos pés a Satanás.

Paulo achava que o "fim dos séculos" já havia chegado a eles:

1 Coríntios 10:11 Estas coisas lhes sobrevieram como exemplos e foram escritas para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado.
  
Ele achava que ficaria vivo até a volta do Senhor:

1 Coríntios 15:51 Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos,

O Senhor está perto, achava ele:

Filipenses 4:5 Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens. Perto está o Senhor.

Paulo achava que ia ser um dos que seriam arrebatados, antes de morrer: 

1 Tessalonicenses 4:15  Ora, ainda vos declaramos, por palavra do Senhor, isto: nós, os vivos, os que ficarmos até à vinda do Senhor, de modo algum precederemos os que dormem.
  
1 Tessalonicenses 4:17  depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor.

Segundo Paulo, Jesus havia aparecido "no fim dos tempos, para aniquilar o pecado": 

Hebreus 9:26 Se assim fosse, Cristo precisaria sofrer muitas vezes, desde o começo do mundo. Mas agora ele apareceu uma vez por todas no fim dos tempos, para aniquilar o pecado mediante o sacrifício de si mesmo.

O dia está próximo, eles estavam vendo: 

Hebreus 10:25 Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas procuremos encorajar-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês vêem que se aproxima o Dia.

Só mais um pouquinho:

Hebreus 10:37 pois em breve, muito em breve Aquele que vem virá, e não demorará.
  
Tiago também achava que o fim estava próximo:

Tiago 5:8 Sejam também pacientes e fortaleçam o seu coração, pois a vinda do Senhor está próxima.

Bem como Pedro:

1 Pedro 4:7 Ora, o fim de todas as coisas está próximo;

E também João:

1 João 2:18 Filhinhos, já é a última hora

E até hoje, depois de tanto tempo de enrolação e espera, nada de Jesus. É ou não é de rir na cara daqueles crentes que dizem que "estamos nos últimos dias"?

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A história por trás da história da mulher adúltera

Esse é sem dúvida um dos episódios mais conhecidos da história de Jesus, talvez de toda a bíblia. Celebrada em cultos, missas, ensinada a crianças. Certamente é a passagem bíblica que mais ganhou versões para o cinema, de tão poderosa e atraente que ela é. Entrou até no filme "A Paixão de Cristo" de Mel Gibson que, apesar de ser um relato apenas das últimas horas de vida de Jesus, incluiu a cena em um dos raros flashbacks no meio do banho de sangue.

A passagem inicia-se em João 8:1, e é bem familiar a todos: Jesus estava de boa, ensinando no templo, quando de repente aparecem alguns fariseus trazendo uma mulher com eles, alegando se tratar de uma adúltera, para que Jesus lhes dissesse o que fazer.

Tratava-se obviamente de uma armadilha. Se Jesus dissesse para soltá-la, o acusariam de violar a lei de Moisés, que ordenava o apedrejamento. Se dissesse para cumprir a lei, o acusariam de contradizer seus ensinamentos anteriores de amor e perdão.

No entanto, Jesus usou de extrema inteligência e malandragem para ver por cima da artimanha dos fariseus, dizendo uma das mais famosas frases da bíblia:

João 8, 7 (...) "Aquele dentre vós que está sem pecado seja o primeiro que lhe atire uma pedra."

Que resposta certeira! Não apenas calou os fariseus, que um a um largaram suas pedras e foram embora, como tirou tanto Jesus quanto a mulher do aperto! É tão perfeita que até parece uma história inventada...

Mas... ela é! Da mesma forma que os doze últimos versículos de Marcos, estudiosos estão certos que essa passagem não passa de uma adição posterior, e não estava nos originais escritos pelo autor do livro de João!

Os motivos são praticamente os mesmos: essa passagem não está presente nos manuscritos mais antigos que foram preservados. Além disso, há outros problemas contextuais. Parece que esqueceram que não se comete adultério sozinho. Porém o homem que praticou adultério com a mulher nem sequer é mencionado. Ele deveria ser apedrejado junto com ela, pois é o que manda a lei de Moisés.

E a resposta de Jesus, apesar de à primeira vista ser perfeita, no fundo é bastante fraca. Qualquer fariseu estudado saberia que em nenhum lugar na lei de Moisés é dito que somente aqueles sem pecado podem participar do apedrejamento. Eles não desistiriam tão fácil! Bastava que os fariseus - que já estavam em fúria para matar Jesus - dissessem isso, que ambos Jesus e a mulher seriam mortos.

Além disso essa passagem gera uma contradição teológica séria com relação à função de Jesus, pois afinal de contas ele acabou não cumprindo a lei de Moisés. Se ele não cumpriu a lei então seu ministério não foi perfeito, e não poderia servir como sacrifício vicário para a expiação dos pecados da humanidade... logo, sua morte foi em vão, e a humanidade não pode ser salva por ele.

Esses motivos levam os estudiosos a estarem certos que essa passagem é na verdade uma adição muito posterior. Ela não está presente em nenhum dos manuscritos mais antigos, é uma história mal contada, que contradiz partes cruciais da doutrina cristã, além de usar palavras e estilos diferentes do utilizado pelo autor no resto do livro.

Mas como ela passou a fazer parte do evangelho? A teoria mais bem aceita é a de que se tratava de uma tradição oral não-oficial sobre Jesus, que em algum ponto foi adicionada na margem de um manuscrito. Dali em diante, algum escriba achou que a nota marginal fazia parte do texto oficial, e o adicionou logo após o fim do capítulo 7. Interessante notar que alguns escribas não sabiam ao certo onde adicionar a passagem, e acabaram colocando, em alguns manuscritos, após João 21:25, e outros, ainda mais interessantemente, após Lucas 21:38.

O que se sabe ao certo é que essa passagem tão famosa e tão querida pelos cristãos, seja lá quem foi que a escreveu, não estava presente nos originais.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Os 12 versículos adicionados de Marcos

Existem passagens bíblicas muito disputadas com relação à sua autenticidade, porém existem aquelas em que os estudiosos concordam que tratam-se de adições posteriores feitas por escribas. Uma das mais famosas são os doze últimos versículos do evangelho de Marcos.

Marcos 16:9 Quando Jesus ressuscitou, na madrugada do primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, de quem havia expulsado sete demônios.

Marcos 16:10 Ela foi e contou aos que com ele tinham estado; eles estavam lamentando e chorando.

Marcos 16:11 Quando ouviram que Jesus estava vivo e fora visto por ela, não creram.

Marcos 16:12 Depois Jesus apareceu noutra forma a dois deles, estando eles a caminho do campo.

Marcos 16:13 Eles voltaram e relataram isso aos outros; mas também nestes eles não creram.

Marcos 16:14 Mais tarde Jesus apareceu aos Onze enquanto eles comiam; censurou-lhes a incredulidade e a dureza de coração, porque não acreditaram nos que o tinham visto depois de ressurreto.

Marcos 16:15 E disse-lhes: Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas.

Marcos 16:16 Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado.

Marcos 16:17 Estes sinais acompanharão os que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas;

Marcos 16:18 pegarão em serpentes; e, se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal nenhum; imporão as mãos sobre os doentes, e estes ficarão curados.

Marcos 16:19 Depois de lhes ter falado, o Senhor Jesus foi elevado aos céus e assentou-se à direita de Deus.

Marcos 16:20 Então, os discípulos saíram e pregaram por toda parte; e o Senhor cooperava com eles, confirmando-lhes a palavra com os sinais que a acompanhavam.

Há o consenso de que esses versículos não estavam nos originais. Não há polêmica quanto a isso. Um dos motivos mais fortes é que eles simplesmente não estão nos melhores e mais antigos manuscritos que foram preservados até hoje. Eles simplesmente não estão lá!

Eles apenas continuam presentes nas bíblias até hoje por tradição, e porque seria polêmico demais retirá-los agora. Porém a maioria das edições recentes incluem embaraçosas notas de rodapé que denunciam a inautenticidade desses versículos.

Existem ainda outros motivos que evidenciam a farsa. Maria Madalena é apresentada novamente no versículo 9 ("de quem havia expulsado sete demônios"), como se já não tivesse sido mencionada no primeiro versículo desse mesmo capítulo:

Marcos 16:1 Quando terminou o sábado, Maria Madalena, Salomé e Maria, mãe de Tiago, compraram especiarias aromáticas para ungir o corpo de Jesus.

Além disso o estilo é diferente do usado em todo o resto do livro de Marcos, introduzindo palavras que nunca foram usadas antes pelo autor, além de práticas estranhas das quais Jesus jamais fez ou ensinou, como beber veneno ou pegar em serpentes (essas eram características típicas de alguns grupos cristãos encantadores de serpentes dos primeiros séculos da era comum).

Os motivos que levaram os escribas a forjarem esses versículos podem ter sido até bem intencionados, pois sem eles o livro termina de maneira abrupta:

Marcos 16:4 Mas, quando foram verificar, viram que a pedra, que era muito grande, havia sido removida.   

Marcos 16:5 Entrando no sepulcro, viram um jovem vestido de roupas brancas assentado à direita, e ficaram amedrontadas.   

Marcos 16:6 “Não tenham medo”, disse ele. “Vocês estão procurando Jesus, o Nazareno, que foi crucificado. Ele ressuscitou! Não está aqui. Vejam o lugar onde o haviam posto.   

Marcos 16:7 Vão e digam aos discípulos dele e a Pedro: Ele está indo adiante de vocês para a Galiléia. Lá vocês o verão, como ele lhes disse.

Marcos 16:8 Tremendo e assustadas, as mulheres saíram e fugiram do sepulcro. E não disseram nada a ninguém, porque estavam amedrontadas.

Como é que é? Então as mulheres fugiram assustadas e não contaram a ninguém? Quer dizer que os apóstolos não ficaram sabendo da ressurreição de Jesus? Nem Jesus se encontrou com eles? Nem lhes disse o que fazer? Isso foi considerado impensável para alguns escribas, que acharam por bem incluir por conta própria um final mais decente, segundo eles, para o evangelho.

Dessa forma, uma das passagens mais usadas por evangélicos pentecostais, aquela que fala dos dons espirituais, passou a ser incluída nas escrituras.