segunda-feira, 16 de abril de 2012

Não tenho fé para ser ateu - Introdução

Conforme prometido, daremos início então ao nosso estudo sobre o livro "Não tenho fé suficiente para ser ateu", de Norman Geisler.

Norman começa seu livro falando sobre um de seus professores de faculdade. Nesse caso, em uma aula sobre religiões, o seu professor acertadamente seguiu o ponto de vista usual das universidades, que é a análise crítica-textual das escrituras bíblicas, ou seja, que Moisés não escreveu o Pentateuco, que os livros proféticos foram escritos após os eventos, e que inicialmente os judeus eram politeístas, mas que ao passar do tempo foram se tornando monoteístas, etc. É a linha usual das escolas atualmente.

Após alguns incidentes realmente desinteressantes para contar aqui, Norman alega que ao final do semestre ele ainda não tinha encontrado a resposta para a verdadeira razão de ter se matriculado naquela matéria: saber se deus existe.

Não sei se essa historia é verdade ou foi inventada só para dar um tom amistoso para o início do seu livro, porque me parece ingenuidade demais alguém se matricular em uma cadeira de seis meses numa universidade só para ter respondida a pergunta que vem incomodando a humanidade por milênios. Ele esperava mesmo que seu professor soubesse a resposta?

Ele alega espanto e indignação quando o seu professor humildemente diz que não sabe:

“Fiquei chocado. Senti vontade de repreendê-lo, dizendo: "Espere um minuto, você está ensinando que o AT é falso e nem mesmo sabe se Deus existe? O AT poderia ser verdade se Deus realmente existisse!". Mas, uma vez que as notas finais não estavam fechadas, resolvi pensar melhor. Em vez disso, simplesmente saí, frustrado em relação a todo aquele semestre. Ele poderia ter respondido com um "sim" ou um "não" sinceros, apresentando suas razões, mas não um "eu não sei".”

Então vemos a lógica de um apologista em ação. Para ele, não se poderia afirmar que o AT é falso sem antes saber se deus existe. Óbvio que isso não é verdade. Deus pode existir e o AT ainda ser falso. E pode-se provar que o AT contém vários erros históricos, matemáticos, erros de copistas, adulterações e falsificações propositais que podem ser estudadas sem a necessidade de fazer uma correlação a existência de deus como um todo. Pode-se ainda estudar o caráter desse deus em particular, e ver por exemplo que se ele alega não mudar nunca, mas em várias outras passagens ele muda de opinião e se arrepende, é óbvio que tem coisa errada na história. Esse deus em particular foi inventado, e não houve necessidade de provar se deus (o deus genérico que a maioria das pessoas acreditam) existe.

Em seguida, Norman passa para uma crítica às universidades que, segundo as palavras dele:

“...consideram todos os pontos de vista tão válidos como quaisquer outros, por mais ridículos que possam ser, com exceção do ponto de vista de que apenas uma religião ou visão de mundo possa ser verdadeira”.

Isso pra mim é mimimi e chororô de quem não consegue ter as suas idéias aprovadas em universidades e seminários históricos e científicos. É óbvio que qualquer um que for a uma universidade afirmando que é detentor da Verdade Absoluta e não for capaz de fornecer uma única evidência consistente para apoiar suas alegações vai e deve ser ridicularizado, seja ele cristão, islâmico, ou ateu.

Idéias para serem levadas a sério precisam passar pelo crivo científico, e não adianta os religiosos se sentirem perseguidos por isso, porque esse princípio vale para todos, bibliólatras, crentes da Terra oca, astrólogos, cientistas, etc.

Norman propõem em seguida uma analogia da vida com um quebra-cabeças no qual precisa-se montar as peças sem saber como é a imagem completa, sem olhar a “tampa da caixa”. Ele diz que religiões podem fornecer a tampa. É uma boa analogia, infelizmente errada. As religiões não tem essa capacidade.

Ele diz que as cinco perguntas mais importantes da vida são: “de onde viemos?”, “quem somos?”, “por que estamos aqui?”, “como devemos viver?” e “para onde vamos?”. Pode até ser, mas em seguida ele fala algo que é uma besteira sem tamanho:

“As respostas a cada uma dessas perguntas dependem da existência de Deus.”

Errado, não dependem, tanto que ateus podem responder essas perguntas relativamente bem e sem grandes problemas, e eles não dependem de deus nenhum. Certamente terei que discorrer sobre essas perguntas novamente depois, então não fazer isso agora. Apenas direi que simplesmente dizer que “foi deus quem quis/fez” não é resposta. Dessa forma, os ateus respondem essas perguntas melhor que os crentes. Mas veremos isso novamente depois.

“Se Deus existe, então existe significado e propósito para a vida.”

Norman já começa a soltar as velhas e batidas pérolas dos teístas. São esses os “incríveis” argumentos que veremos nesse livro? Francamente, esperava mais.

Vou simplesmente repetir aqui o que já explicava anos atrás para os cristãos que achavam que os ateus não tem um propósito para a vida: propósito, cada um faz o seu. E não necessariamente depende da existência de deus ou deuses nenhum. Os propósitos de cada um podem ser os mais variados possíveis. O propósito de alguém pode ser criar seus filhos no melhor ambiente possível. Para outros, pode ser sucesso em sua profissão, ser o melhor médico, advogado, engenheiro, professor, e contribuir para uma sociedade melhor. O propósito de outros pode ainda ser apenas paz de espírito. Ou encontrar o amor perfeito. Ou tudo isso junto. Ou, para muitos crentes, pode ser passar a vida inteira louvando algo que eles chamam de deus, e sonhar passar o resto da eternidade fazendo o mesmo.

O importante é: o seu propósito não precisa ser necessariamente igual ao meu. E se o seu propósito não é igual ao meu, não é motivo para dizer que eu não tenho propósito para a minha vida. Ou seja, se eu não sigo o seu propósito, não quer dizer que eu não sigo um propósito para mim mesmo. É de extrema arrogância pensar isso, e é algo comum entre os crentes.

“Se existe um verdadeiro propósito para sua vida, então existe uma maneira certa e uma maneira errada de viver.”

Aqui vemos a típica falsa dicotomia que geralmente está presente na apologia cristã. Então existe uma maneira certa e uma errada de viver, e, adivinhe, a maneira correta é a cristã, e a maneira errada são todas as outras.

Para os cristãos é muito prático colocar tudo em termos de preto e branco, certo e errado, santo e pecador, salvo e condenado. Mas é uma visão completamente equivocada. Não sabem eles que a vida é muito mais complexa do que isso, e nem tudo pode ser resolvido em termos de uma simples dualidade. É óbvio que um modo de vida pode ser mais correto do que outro, mas isso não significa que alguém que vive de forma diferente que a nossa necessariamente esteja vivendo em erro.


Norman continua:

“As escolhas que fazemos hoje não apenas nos afetam aqui, mas também na eternidade.”

Estava demorando para aparecer o bom e velho orgulho do ser humano, em se achar tão importante no esquema geral de coisas que ele se considera digno de sobreviver até à própria morte. “É claro que eu sou especial demais para ter um fim”. Esse apelo também tem a necessidade de atender ao nosso senso de justiça. O mundo é injusto, e para muitos de nós isso é inadmissível. É preciso haver alguma forma de compensação, algo que equilibre a balança, ainda que seja após a morte, ainda que seja algo totalmente inventado. Não, meu caro, o Universo não tem obrigação nenhuma de satisfazer nem a nossa sede de justiça nem o nosso orgulho. Se quisermos consertar as coisas, tem que ser aqui e agora, enquanto estamos vivos, porque após a nossa morte não fará diferença alguma.

“Por outro lado, se Deus não existe, então a conclusão é que a vida de alguém não significa nada.”

Novamente a falsa dicotomia. Ou deus existe para que a nossa vida tenha sentido, ou podemos nos matar agora mesmo que não faz diferença alguma.

Seria extremamente triste se os ateus pensassem mesmo dessa forma, e deve ser por isso que muitos crentes dizem que “não existe ateus, e sim crentes que se revoltaram contra deus”, principalmente quando vêem ateus felizes e de bem com a vida. Para eles é impossível compreender como é que uma pessoa não precisa de deus e ainda ser feliz! “É claro que no fundo eles acreditam em deus, e estão apenas em negação”. Que tal isso para arrogância?

Não, ateus não acreditam em deus, e justamente por isso devem viver a vida ao máximo, pois ela será a única que terão. Não temos a esperança nem a pretensão de achar que viveremos para sempre após a morte, e não nos iludimos com historinhas de contos de fadas e wishfull thinking. Mas preferimos assim. Melhor a dura realidade do que a entorpecente ilusão. Isso não faz a vida "não significar nada", muito pelo contrário, ela faz da vida o bem mais precioso que qualquer pessoa já recebeu.

“Uma vez que não existe um propósito duradouro para a vida, não existe uma maneira certa ou errada de viver. Não importa de que modo se vive ou naquilo em que se acredite, pois o destino de todos é o pó.”

Essa é a parte mais assustadora dos fanáticos religiosos. Aqui, ele admite claramente que se deus não existe, então ele estaria cometendo toda sorte de crimes, já que para ele não faz diferença alguma. Então, a única coisa que o impede são as conseqüências futuras do pós-vida. Ou seja, ao invés de fazer o bem porque é o correto, ele faz apenas para preservar o próprio rabo!

Que belo caráter cristão hein? E isso é algo comum entre eles, é corriqueiro ver eles fazerem esse tipo de confissão.

Eu, pessoalmente, prefiro fazer o bem porque eu sei que estou ajudando as pessoas e construindo um futuro melhor para as futuras gerações, sem me preocupar com recompensas ou punições eternas. E depois os cristãos ainda se consideram moralmente superior aos ateus!

Norman, em seguida, faz uma explicação bem superficial sobre os problemas das religiões, na qual ele destaca a existência de milhares de religiões diferentes e conflitantes entre si, o problema do mal, e a indiferença de deus. Ele vai dar as suas respostas no decorrer do livro, então também não tratarei delas agora.

“Mas aonde tudo isso nos leva? Será que a busca por Deus e pela tampa da caixa da vida é vã? Deveríamos pressupor que não existe sentido objetivo na vida e que cada um inventa sua própria tampa da caixa? Deveríamos contentar-nos com a resposta "eu não sei" do professor universitário? Achamos que não. Cremos que existe uma resposta real. Apesar das fortes objeções que identificamos (as quais abordaremos nos capítulos seguintes), acreditamos que a resposta é bastante racional. Na verdade, acreditamos que essa resposta é a mais racional e a que exige menos fé do que qualquer outra resposta possível, incluindo a opção de ser ateu.”

Então, a proposta desse livro é mostrar que o cristianismo é a resposta mais racional que existe, entre todas as possíveis, inclusive do ateísmo. Veremos nas próximas postagens se ele tem mesmo tantos argumentos quanto diz, ou e é só bravata de mais um apologista bíblico.


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domingo, 15 de abril de 2012

Opinião de peso!


sábado, 14 de abril de 2012

Falha minha!

Vixi, acredito que fiz uma besteira bem grande aqui. Estava instalando um widget novo no blog para lidar com os comentários. Parecia bem interessante, o problema é que durante a migração do layout antigo para o novo  todos os comentários feitos nos últimos dias sumiram!

Não sei se a importação ainda não terminou ou se vai ficar assim mesmo, mas desde já lamento pelo inconveniente. A discussão estava boa no tópico do Abraão, e seria uma pena se eles forem mesmo perdidos.

Vou entrar em contato com os administradores para ver se consigo recuperá-los. Qualquer informação eu retorno a vocês.

Att.

Cristiano.

Update: Os comentários voltaram! Lamento a todos pela inconveniência!

Bispos lançam campanha para desobedecer "leis injustas"

Paróquias e dioceses nos Estados Unidos lançaram uma campanha nesta quinta-feira (12) em defesa dos direitos de liberdade religiosa e para que católicos lutem contra leis que eles consideram injustas.

Por injustas eles falam de leis que obrigam as igrejas a obedecerem as mesmas leis que vale para todos, mas que vão de encontro com suas crenças. Por exemplo, a obrigação de permitir a adoção de crianças de orfanatos católicos por casais do mesmo sexo. Muitas igrejas estão fechando os orfanatos para não precisar obedecer a lei, ou seja, na cabeça "pura" e "santa" desses cristãos, eles preferem ver crianças abandonadas nas ruas do que serem adotadas por homossexuais. Outra medida da qual são contra é a obrigação de fornecer anticoncepcionais e assistência para o aborto em jovens meninas vítimas do tráfico e exploração sexual.

"De forma sem precedentes, o governo tanto força instituições religiosas a facilitar e a promover idéias contrárias aos seus ensinamentos morais, quanto define quais instituições são 'religiosas o suficiente' para merecer proteção por sua liberdade de crença", diz o documento de 12 páginas assinado pelos bispos.

Engraçado, eles alegam que seus direitos estão sendo violados quando suas entidades pastorais e beneficentes são obrigadas pelo governo a praticar ações que vão de encontro com seus dogmas, mas não reclamam que essas entidades recebem isenções e benefícios do governo por serem consideradas religiosas. Como o governo financia essas instituições, elas devem servir a toda a sociedade, não apenas aos ideais católicos.

A conta é muito simples: quer receber benefícios do governo, então atenda à sociedade inteira, baseado nos ideais da sociedade com um todo. Quer seguir estritamente os seus ideais religiosos? Então abra mão dos benefícios do governo. É claro que as instituições podem aconselhar as pessoas de acordo com suas crenças, mas não podem obrigá-las a obedecê-las, nem forçar o governo a criar leis especiais para eles.

Então, ao invés de simplesmente agir de forma cristã e obedecer o governo, conforme o apóstolo Paulo disse, preferem fechar as portas e jogar crianças adolescentes carentes nas ruas. Aposto que Jesus ficaria orgulhoso.

Informações com Associated Press.

Adulterações das Escrituras por Motivos Teológicos - III

Continuaremos com o nosso estudo sobre as adulterações nas escrituras por motivações teológicas. Se você ainda não viu, pode acompanhar a introdução na parte I e as adulterações anti-docentistas na parte II.

Os cristãos gostam de pensar que o cristianismo primitivo era uma unidade coesa de idéias, com apenas alguns problemas localizados os quais podiam ser tratados com algumas simples cartas e admoestações dos apóstolos. A verdade é que era bem o oposto disso. Haviam várias formas de cristianismo completamente conflitantes entre si, cada um alegando ser "o" verdadeiro cristianismo, e cada um com a sua própria literatura, muitas vezes com passagens forjadas ou falsificados em sua totalidade. Essa era uma forma de tentar persuadir os fiéis a se manterem na "religião correta", e se afastar das "heresias", deixando bem claro que por religião correta é a "minha crença", e heresia é a sua.

Veremos agora um outro grupo de cristãos, que se encontravam no lado diametralmente oposto aos docentistas.

Os cristãos adocionistas

Um grande número de grupos cristãos no segundo e terceiros séculos da era comum adotavam uma visão "adocionista" de Cristo. Essa visão é chamada assim porque os seus fiéis acreditavam que Jesus não era divino mas 100% humano de carne e osso, ao qual deus havia "adotado" na hora do seu batismo.

Um grupo específico de cristãos judeus que ganhou notoriedade na época eram os chamados ebionitas. Não se sabe ao certo por que receberam esse nome, mas acredita-se que pode ter sido originado da palavra grega "ebyon", que significa pobre.

Para pertencer a esse grupo, o fiel teria que ser como Jesus, ou seja, judeu. Teria que ser circuncidado se fosse homem, e seguir todas as 613 leis de Moisés. Certamente que não acreditavam na trindade, já que Jesus era um ser humano comum, nascido de uma mulher comum (nascimento não-virginal), e viveu em uma  lar judeu comum.

Para eles, Jesus era apenas um rigoroso seguidor da lei mosaica, e, por causa de ser extremamente justo aos olhos de deus, foi adotado por ele durante o seu batismo, onde se ouviu uma voz dizendo que ele era o seu filho unigênito. Desse momento em diante Jesus seguiu a missão dada por deus, que era morrer na cruz como um sacrifício pela humanidade. Depois, deus o ressuscitou, e o elevou até os céus, onde está aguardando retornar para julgar as nações.

Assim, de acordo com o ebionitas, Jesus não pré-existiu, não nasceu de uma virgem, não era divino em si. Ele era apenas um ser humano especial, escolhido por deus para ser seu filho adotivo, e executar uma missão aqui na Terra.

Adulterações anti-adocionistas das escrituras

Em resposta a essas alegações, cristãos proto-ortodoxos insistiam que Jesus não era um mero ser humano, mas realmente divino, o próprio deus encarnado. Ele nasceu sim de uma virgem, e era superior aos homens porque ele era diferente por natureza, e no seu batismo deus não fez dele o seu filho adotivo, mas apenas afirmou que ele era e sempre foi de fato seu filho unigênito, desde o início dos tempos.

Algumas vezes, alegações não eram suficientes, e os cristãos proto-ortodoxos se valiam de adulterações das escrituras para validar ou enfatizar seus pontos de vista.

Quem se manifestou em carne?

Já foi discutido aqui uma passagem em que um erro de copista em I Timóteo 3:16 pode ter implicações teológicas sérias por mudar drasticamente a interpretação da passagem, alterando a palavra omicron-sigma (ΟΣ), que significa "aquele", por teta-sigma (ΘΣ) com um traço em cima, uma abreviatura para a palavra "Deus".

1 Timóteo 3:16 Evidentemente, grande é o mistério da piedade: Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em espírito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória. (Versão João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada)

1 Timóteo 3:16 E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória.  (Versão João Ferreira de Almeida Corrigida e Revisada, Fiel)

Agora nós já podemos entender o por quê. Provavelmente o escriba achou uma boa oportunidade de combater idéias adocionistas, fortalecendo a idéia de que Jesus era de fato Deus manifestado em carne.

Pai? Que pai?

Outra modificação anti-adocionista aconteceu em Lucas, na parte José e Maria levam o bebê Jesus ao tempo e Simeão o abençoa, e é dito que "seu pai e sua mãe estavam maravilhados do que se dizia dele". Peraí, seu pai? Como é que o texto diz que José é o pai de Jesus se ele nasceu de uma virgem? Assim, não é surpresa que em muitos manuscritos os escribas alteraram o texto para eliminar uma possível interpretação adocionista, alterando para "José e sua mãe", como podemos ver aqui:

Lucas 2:33 E estavam o pai e a mãe do menino admirados do que dele se dizia. (Versão João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada)

Lucas 2:33 
Enquanto isso, seu pai e sua mãe se admiravam das coisas que deles se diziam. (Versão João Ferreira de Almeida Atualizada)

Lucas 2:33 E José, e sua mãe, se maravilharam das coisas que dele se diziam. (Versão João Ferreira de Almeida Corrigida e Revisada, Fiel)

Lucas 2:33 And Joseph and his mother marvelled at those things which were spoken of him. (Versão King James)


Um fenômeno similar ocorreu em Lucas 2:43, quando José, Maria e Jesus vão a um festival em Jerusalém, e ao voltarem, é dito que Jesus ficou para trás sem que seus pais soubessem. Mas José não era de fato o pai de Jesus, então vários escribas "corrigiram" isso, alterando o texto para "José e sua mãe", como podemos ver ainda em algumas versões da bíblia.

Lucas 2:43 Terminados os dias da festa, ao regressarem, permaneceu o menino Jesus em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem. (Versão João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada)

Lucas 2:43 e, terminados aqueles dias, ao regressarem, ficou o menino Jesus em Jerusalém sem o saberem seus pais(Versão João Ferreira de Almeida Atualizada)

Lucas 2:43 E, regressando eles, terminados aqueles dias, ficou o menino Jesus em Jerusalém, e não o soube José, nem sua mãe(Versão João Ferreira de Almeida Corrigida e Revisada, Fiel)

Lucas 2:43 And when they had fulfilled the days, as they returned, the child Jesus tarried behind in Jerusalem; and Joseph and his mother knew not of it. (Versão King James) 


Essas alterações não foram acidentais, elas tinham um propósito, que era o de evitar uma "interpretação errada" por parte de cristãos adocionistas.

"Tu és meu filho, e hoje te gerei"

Uma das mais intrigantes variações anti-adocionistas nos manuscritos ocorre justamente na hora do batismo de Jesus, onde os adocionistas insistem que foi nessa hora em que deus o escolheu como filho adotivo. 

No evangelho de Lucas e de Marcos, quando Jesus é batizado, os céus se abrem, o espírito santo desce na forma de uma pomba, e escuta-se uma voz nos céus. Na maioria dos manuscritos, a voz em Lucas diz a mesma coisa que em Marcos, "tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo". No entanto, em um antigo manuscrito grego e em vários manuscritos latinos, em Lucas é dito algo bem diferente: "tu és meu Filho, e hoje eu te gerei".

Hoje eu te gerei! Não é extremamente sugestivo que Jesus se tornou o Filho de Deus na hora do seu batismo?

Mas então, qual das duas formas é a original? A vasta maioria dos manuscritos gregos traz a forma tradicional,  "tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo", então podemos ser tentados a achar que essa é a forma correta e a outra a alteração. O problema é que a outra versão,  "tu és meu Filho, e hoje eu te gerei", é a mais citada entre os pais da igreja no período anterior ao da produção da maioria dos manuscritos que temos hoje. É citada no segundo e terceiro séculos em toda a parte em Roma, Alexandria, norte da África, Palestina, Gales, Espanha. Em quase todas instâncias, é a forma  "tu és meu Filho, e hoje eu te gerei" que é usada!

E não é o fato de haver mais manuscritos que automaticamente torna a passagem mais confiável. Como a passagem em Lucas destoa da de Marcos, é possível que os escribas tentassem harmonizá-las, eliminando a contradição, ao mesmo tempo em que combatem uma possível interpretação adocionista.

Único Filho ou único deus?

Uma última alteração anti-adocionista que veremos aqui pode ser encontrada no primeiro capítulo do evangelho de João. O livro começa com o famoso prólogo: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus".

Ao chegar no versículo 18, duas variantes são encontradas:

João 1:18 Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou. (Versão João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada) 

João 1:18 Ninguém jamais viu a Deus. O Deus unigênito, que está no seio do Pai, esse o deu a conhecer. 
(Versão João Ferreira de Almeida Atualizada) 

João 1:18 Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou. (Versão João Ferreira de Almeida Corrigida e Revisada, Fiel) 

João 1:18 No man hath seen God at any time, the only begotten Son, which is in the bosom of the Father, he hath declared him. 
(Versão King James) 

Qual é a correta, o "Deus unigênito", ou o "Filho unigênito"? Os melhores e mais antigos manuscritos Alexandrinos indicam que é a primeira, "Deus unigênito". Mas é interessante que essa forma raramente é encontrada em manuscritos não-alexandrinos. É possível que essa variante tenha se tornado popular apenas em Alexandria por algum escriba com idéias anti-adocionistas. Isso explicaria por que a vasta maioria dos manuscritos encontrados em todos os outros lugares não usa "Deus unigênito", mas sim "Filho unigênito".

Além disso, João chama Jesus de "Filho unigênito" em vários outros lugares, mas nunca se refere a "Deus unigênito". É até difícil entender o que isso significa ao certo. Por "unigênito" entende-se filho único, e chamar um Deus de unigênito significa que esse Deus teve um pai, e portanto não pode haver um único Deus.

É mais provável, portanto, que essa passagem foi alterada por algum escriba alexandrino que não estava confortável com o status dado a Jesus, e decidiu mudar isso. Assim, Jesus não é um mero Filho unigênito, e sim o próprio Deus unigênito, provavelmente para usar contra cristãos adocionistas.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Para onde foi Paulo após a sua conversão?

De Damasco foi para Jerusalém:

Atos 9 nos conta a história: após sua conversão, ficou alguns dias em Damasco, e, após uma tentativa dos judeus de matá-lo, desceu de um muro por um cesto, e foi para Jerusalém se encontrar com os discípulos, que o temiam por sua fama de perseguidor de cristãos.

Atos,9:17E Ananias foi, e entrou na casa e, impondo-lhe as mãos, disse: Irmão Saulo, o Senhor Jesus, que te apareceu no caminho por onde vinhas, me enviou, para que tornes a ver e sejas cheio do Espírito Santo.
Atos,9:18E logo lhe caíram dos olhos como que umas escamas, e recuperou a vista; e, levantando-se, foi batizado.
Atos,9:19E, tendo comido, ficou confortado. E esteve Saulo alguns dias com os discípulos que estavam em Damasco. 

(...)

Atos,9:23E, tendo passado muitos dias, os judeus tomaram conselho entre si para o matar.
Atos,9:24Mas as suas ciladas vieram ao conhecimento de Saulo; e como eles guardavam as portas, tanto de dia como de noite, para poderem tirar-lhe a vida,
Atos,9:25Tomando-o de noite os discípulos o desceram, dentro de um cesto, pelo muro.
Atos,9:26E, quando Saulo chegou a Jerusalém, procurava ajuntar-se aos discípulos, mas todos o temiam, não crendo que fosse discípulo.

De Damasco foi para a Arábia:

No entanto, o próprio Paulo conta uma história bem diferente: ele diz claramente que não voltou para Jerusalém, e sim foi para a Arábia, e ficou por lá por 3 anos, antes de finalmente voltar a Jerusalém! Além de tudo, alega claramente que não viu a nenhum discípulo, apenas Pedro e Tiago!

Gálatas,1:15Mas, quando aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mãe me separou, e me chamou pela sua graça,
Gálatas,1:16Revelar seu Filho em mim, para que o pregasse entre os gentios, não consultei a carne nem o sangue,
Gálatas,1:17Nem tornei a Jerusalém, a ter com os que já antes de mim eram apóstolos, mas parti para a Arábia, e voltei outra vez a Damasco.
Gálatas,1:18Depois, passados três anos, fui a Jerusalém para ver a Pedro, e fiquei com ele quinze dias.
Gálatas,1:19E não vi a nenhum outro dos apóstolos, senão a Tiago, irmão do Senhor.

Oops!

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Somente deus faz sinais e maravilhas?

Sim:


Salmos,136:3Dêem graças ao Senhor dos senhores. O seu amor dura para sempre!
Salmos,136:4Ao único que faz grandes maravilhas, O seu amor dura para sempre!


Não, Satã também sabe fazer maravilhas:

2Tessalonicenses,2:9A vinda desse perverso é segundo a ação de Satanás, com todo o poder, com sinais e com maravilhas enganadoras.

P.S.: Com essa, atingimos a impressionante marca de 200 contradições catalogadas! Considerando que uma bíblia em média tem umas 400 páginas, e que cada contradição precisa de no mínimo duas passagens (mas normalmente há mais), podemos dizer com segurança que a bíblia tem pelo menos um trecho contraditório por página! :D

terça-feira, 10 de abril de 2012

Não tenho fé suficiente para ser ateu?

Neste local estarei postando a minha análise referente a esse livro, "Não Tenho Fé Suficiente Para Ser Ateu", de Norman Geisler, algo que já gostaria de ter feito há muito tempo atrás, mas nunca tive tempo nem oportunidade.

Confesso que já comecei a ler esse livro, de tanto os crentes falarem a respeito dele, mas não cheguei ao fim. Fiquei extremamente decepcionado, pois esperava mais. Achava que veria a vanguarda dos melhores argumentos que os teístas pudessem arrumar, e logo no primeiro capítulo encontro o velho "se deus não existe, então não há propósito para a vida". Puta que o pariu, nós já refutávamos esse argumento no orkut em 2005! Tentei aguentar mais um pouco, mas a coisa foi só piorando... até que desisti. O livro simplesmente não valia o tempo perdido para ser lido. Lixo total.

No entanto, ele continua sendo tratado como "referência" pelos crentes, como uma refutação ao ateísmo, isso e mais aquilo. Então, resolvi dar mais uma chance, mas dessa vez, como motivação, estarei colocando o meu progresso aqui, bem como as minhas colocações e análises a respeito.

Vou adiantando que não será minha prioridade. Estarei atualizando o blog com outras informações normalmente, e quando tiver tempo disponível e saco para ler o "NTFSPSA", eu colocarei aqui.

Antes de mais nada, uma pequena introdução sobre quem é Norman Geisler. Ele é um cristão fundamentalista bíblico, PhD em filosofia, autor e co-autor de mais de 70 livros de apologética cristã, inerrantista, e, sob muitos aspectos, um típico conservador americano. Em sua página oficial, ele se considera uma mistura de "Tomás Aquino" com "Billy Grahan", outro apologista cristão. Acredita que sua missão é defender o evangelho com unhas e dentes.

Quanto a mim, sou apenas um ateu, livre-pensador, cético e crítico das religiões. Não pretendo falar por todos os ateus, mas certamente muitos irão se identificar com as minhas palavras, apesar de que provavelmente haverão aqueles que irão discordar. Mas é assim que as coisas funcionam. Não alego conhecer a verdade absoluta. Não alego ser inerrantista. Pelo contrário, acredito que a busca pela verdade é uma luta constante, tateando no escuro em busca de aprimoramentos, melhorias, evoluções.

Aqui será um espaço de discussão, onde todos são livres para postar suas opiniões, sem censura de forma alguma. A postagem anônima continua liberada, apesar de que seria interessante que escolhessem um perfil, para poder identificá-los melhor em caso de uma resposta.

Um último recado, poderei alterar ou melhorar um argumento se achar assim necessário. Como disse, aqui é um aprendizado, e não há motivos para ter vergonha de errar.

No mais, boa sorte a todos nós.


Introdução
     Que tipo de deus?

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Mememania 2!

Porque eu sei que vocês gostam ;-D











Lindas Leis Divinas VII: Foi estuprada e não gritou? Morra!

Pois é, mulheres cristãs... se vocês forem estupradas na cidade e não gritarem, significa automaticamente que vocês gostaram, então, se forem casadas, cometeram adultério e são passíveis de morte por apedrejamento. É o que diz a bíblia:

Deuteronômio,22:23Quando houver moça virgem, desposada, e um homem a achar na cidade, e se deitar com ela,
Deuteronômio,22:24Então trareis ambos à porta daquela cidade, e os apedrejareis, até que morram; a moça, porquanto não gritou na cidade, e o homem, porquanto humilhou a mulher do seu próximo; assim tirarás o mal do meio de ti.

Essa lei não leva em consideração o simples fato da mulher talvez estar amordaçada, ou inconsciente, ou um simples "se gritar eu te mato", ou até mesmo ter gritado e ninguém ter ouvido. "Bela" e "justa" lei do criador todo-poderoso, não acham?

domingo, 8 de abril de 2012

sábado, 7 de abril de 2012

A disposição para matar seu próprio filho

Incrível como uma das cenas mais louvadas pelos cristãos, mais famosas, cantada em hinos, representada em desenhos animados, é na verdade uma das mais abomináveis histórias que alguém poderia inventar: a disposição de matar seu próprio filho.


Gênesis,22:1E aconteceu depois destas coisas, que provou Deus a Abraão, e disse-lhe: Abraão! E ele disse: Eis-me aqui.
Gênesis,22:2E disse: Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu te direi.

Podemos perguntar que tipo de pai estaria disposto a matar seu filho. Ou, que tipo de deus obrigaria alguém a cometer tal ato. Mas a questão aqui é diferente: é como os cristãos amam uma história horrível dessas.

Abraão e Isaque, por Peter Bentley.

Está certo que Abraão não assassinou seu filho, mas somente porque deus o impediu; ele passou no teste de fé ao qual foi submetido, por um deus que supostamente já sabia qual seria o resultado (acho que deus estava apenas sem ter o que fazer, e quis sacanear com Abraão).

O que os cristãos diriam de alguém que estivesse disposto a matar seu filho hoje em dia? Será que eles achariam bonito também? Será que eles seriam capazes de fazer o mesmo, se escutassem vozes de deus na cabeça? Ou, no mínimo, gostariam de ter essa fé?

Com esse ato de fé, Abraão foi recompensado com a promessa de que seria o povo escolhido de deus. Deus adorou a disposição dele em matar o seu filho!  Afinal de contas, deus também tinha planos para matar seu próprio filho, Jesus, mais para frente. Deve ter pensado: esse cara é dos meus!

Gênesis,22:16E disse: Por mim mesmo jurei, diz o SENHOR: Porquanto fizeste esta ação, e não me negaste o teu filho, o teu único filho,
Gênesis,22:17Que deveras te abençoarei, e grandissimamente multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos céus, e como a areia que está na praia do mar; e a tua descendência possuirá a porta dos seus inimigos;

Abraham en Isaac, de  Rembrandt, 1634.
No entanto, não é dessa forma que devemos pensar. Não devemos achar essa história bonita. Quando solicitado a matar seu próprio filho, Abraão deveria ter dito um enfático NÃO! Não é assim que o ser humano deve agir, não é uma atitude louvável. Matar pessoas, quanto mais seu próprio filho, para agradar a deuses, não deve ser um motivo de orgulho, deve ser de vergonha. É uma vergonha para a humanidade que essa lenda ainda seja passada de geração a geração, de pais para filhos, e de clérigos para fiéis, ano após ano, como se fosse uma linda história com uma linda moral. Não é! A história é horrível e a moral pior ainda: obedeça cegamente a deus ainda que ele mande cometer crimes bárbaros que você será recompensado. Que porra de moral é essa?

Não consigo encontrar beleza alguma nessa história. Certamente ela pode ter feito sentido há muito tempo atrás, quando a humanidade não era esclarecida o suficiente para entender como era o mundo ao seu redor, e como funciona a verdadeira moralidade. A moralidade na qual todos os seres humanos são tratados com respeito e igualdade, e não baseada em crenças absurdas de povos antigos, resumida simplesmente a "deus disse, então tá". Somos melhores que isso.

Mais uma vez, cristãos: Ter disposição para matar seu próprio filho não é virtude, é insanidade! E compactuar com isso é compactuar com a loucura.


quinta-feira, 5 de abril de 2012

terça-feira, 3 de abril de 2012

Adulterações das Escrituras por Motivos Teológicos - II


Cristãos docentistas

Como vimos brevemente na parte anterior, Marcion tinha uma visão muito peculiar de cristianismo. Ele chegou à conclusão – muito coerente, por sinal – de que o deus do Antigo Testamento, cheio de ira e vingança, não poderia ser o mesmo deus do Novo; tratam-se de dois deuses diferentes, com o deus de Israel sendo um deus menor, inferior. Ele criou esse mundo, escolheu Israel como seu povo, exigiu sacrifícios e obrigou a manter todo o rigor da lei mosaica para perdoar os pegados. Dessa forma, o deus de Jesus, do perdão e do amor, viu a situação dos humanos, e enviou Jesus para a nossa salvação.

Como Jesus não foi criado por esse deus inferior, que criou esse mundo, ele não poderia ter um corpo material. Ele não poderia ter nascido, nem poderia sentir fome, nem sede, nem dor. Ele também não poderia morrer de verdade. Ele apenas aparentava ser humano. Assim, em um aparente sacrifício, o deus de Israel aceitou sua “morte” como pagamento dos pecados. E assim a humanidade foi salva.

Então Jesus, segundo Marcion, era 100% divino e 0% humano. Os que acreditavam nisso eram chamados “docentistas”. O nome vem do grego DOKEO, que significa “aparentar”, “parecer”. Como ele era deus, não poderia ser um homem, ele apenas aparentava ser.

Infelizmente nenhum dos escritos de Marcion sobreviveu até os dias de hoje, mas sabe-se que ele foi uma grande ameaça aos cristãos “ortodoxos” de sua época (proto-ortodoxo seria o nome mais apropriado). Sabemos disso porque muitos dos pais da igreja escreveram sobre ele, como Irineu e Tertuliano, citando-o palavra por palavra, com as devidas refutações. Tertuliano chegou a escrever um livro de cinco volumes chamado “Against Marcion” (Contra Marcion).

Cristãos proto-ortodoxos criticavam duramente as idéias de Marcion, pois se Jesus não fosse plenamente humano, então não poderia sofrer, não teria seu sangue derramando, e seu sacrifício humano seria inútil. Sua “morte aparente” não serviria para nada. Não, ele nasceu de verdade, cresceu de verdade, sofreu de verdade, morreu, ressuscitou, e está sentado no céu aguardando voltar, fisicamente, em toda sua glória.

No entanto, escrever tratados não era a única maneira que os cristãos proto-ortodoxos tinham para refutar idéias que eles consideravam heresias: eles podiam fazer alterações diretamente nas escrituras.

Adulterações anti-docentistas das escrituras

O debate sobre as idéias docentistas influenciou os escribas que copiavam os livros que eventualmente entraram para o Novo Testamento. Alguém que quisesse minar as idéias docentistas teria que alterar os textos de modo a incluir aspectos humanos a Jesus. Veremos a seguir quatro passagens que são consideradas inserções posteriores, provavelmente por motivações anti-docentistas, pois elas sempre enfatizam que Jesus era real, de carne, osso e sangue. Elas não estão presentes nos manuscritos mais antigos, e sua ausência é difícil de explicar. Não pode ser usada a desculpa de ser homeoteleuto (quando a repetição de palavras com fonética similar pode induzir ao erro). Todas as passagens são do livro de Lucas, que, como vimos, era o único evangelho usado por Marcion.

Jesus suando sangue

A primeira passagem que veremos é aquela onde Jesus se encontra no monte das oliveiras momentos antes de ser preso. Após encorajar os seus discípulos a “orar, para que não entrem em tentação”, ele se afasta, se ajoelha e reza: “Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua”:

Lucas,22:39 E, saindo, foi, como de costume, para o monte das Oliveiras; e os discípulos o acompanharam.
Lucas,22:40Chegando ao lugar escolhido, Jesus lhes disse: Orai, para que não entreis em tentação.
Lucas,22:41Ele, por sua vez, se afastou, cerca de um tiro de pedra, e, de joelhos, orava,   
Lucas,22:42dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua.

Em seguida, vem a parte que é considerada pelos estudiosos como uma inserção posterior; ela não está presente em muitos nos melhores e mais antigos manuscritos que possuímos, os Alexandrinos. Algumas bíblias admitem isso usando colchetes e notas de rodapé. Nessa passagem, Jesus é confortado por um anjo, e fica tão angustiado que começa a suar sangue:

Lucas,22:43[Então, lhe apareceu um anjo do céu que o confortava.
Lucas,22:44E, estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra.]

Após isso, Jesus se levanta, retorna aos discípulos e os encontra dormindo. Ele repete a primeira instrução e em seguida aparece Judas com a multidão para prendê-lo:

Lucas,22:45Levantando-se da oração, foi ter com os discípulos, e os achou dormindo de tristeza,
Lucas,22:46e disse-lhes: Por que estais dormindo? Levantai-vos e orai, para que não entreis em tentação.
Lucas,22:47Falava ele ainda, quando chegou uma multidão; e um dos doze, o chamado Judas, que vinha à frente deles, aproximou-se de Jesus para o beijar.

Existem outros argumentos que sugerem que os versículos 43 e 44 não pertenciam ao texto original. Por exemplo, o estilo de escrita não se parece com o que Lucas utilizava. Existem palavras ali que não são usadas nenhuma outra vez nem em Lucas nem em Atos dos Apóstolos (ambos os livros são considerados escritos pelo mesmo autor), tais como “agonia”, “suor”, “gotas”.

Outro argumento é que existe nesse episódio uma estrutura lingüística que parece deliberada, chamada de “quiasma”, que ocorre quando a primeira sentença corresponde à última, a segunda corresponde à penúltima, etc. A intenção é focar a atenção do leitor ao centro da passagem como ponto principal.

Nesse caso, vemos que sem a passagem duvidosa o quiasma funciona perfeitamente: Jesus pede que “orem, para não cair em tentação”, se afasta deles, se ajoelha, e ora. O centro da passagem se torna a própria oração de Jesus, pedindo que a vontade de deus seja feita. Em seguida, termina a oração, se levanta, volta para os discípulos e, ao encontrá-los dormindo, repete a instrução “orem, para que não entrem em tentação”.

A intenção do autor é clara, intensificar a oração de Jesus e facilitar a sua interpretação: Jesus pede para seus discípulos orarem para afastar as tentações. Em seguida, ele próprio ora para deus afastar dele esse cálice, mas que mesmo assim que a sua vontade seja feita. E o que acontece quando ele volta?  Seus discípulos justamente ao invés de orar, caíram em tentação e dormiram. Ao ver os inimigos, fugiram. Jesus, que permaneceu orando, obedeceu à vontade de deus e foi para o martírio.

Com a adição das passagens duvidosas o quiasma é completamente destruído. O centro da passagem se torna a agonia de Jesus, uma agonia tão grande que fez seu suor se transformar em sangue. Ao invés de enfatizar que a vontade de deus deve ser feita, enfatizou que a oração de Jesus não serviu em nada para acalmar sua agonia.

Essa passagem simplesmente não parece se encaixar na narrativa, e o motivo é muito simples: ela foi inserida posteriormente. O motivo, como nós vimos, pode ser para combater idéias docentistas. Curiosamente essa passagem foi utilizada por cristãos proto-ortodoxos como Justino, Irineu e Hippolytus para refutar a idéia de que Jesus não era um ser humano real, já que eles representavam tão nitidamente o sofrimento humano e agonia de Jesus.

O sangue derramado “por você”

Uma das mais famosas passagens da bíblia, recitada em todas as missas, também não está presente nos manuscritos mais antigos, tanto gregos quanto na versão em latim. É aquela em que Jesus está na última ceia:

Lucas,22:17Recebendo um cálice, ele deu graças e disse: "Tomem isto e partilhem uns com os outros.
Lucas,22:18Pois eu lhes digo que não beberei outra vez do fruto da videira até que venha o Reino de Deus".
Lucas,22:19Tomando o pão, deu graças, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: "Isto é o meu corpo dado em favor de vocês; façam isto em memória de mim".
Lucas,22:20Da mesma forma, depois da ceia, tomou o cálice, dizendo: "Este cálice é a nova aliança no meu sangue, derramado em favor de vocês.
Lucas,22:21"Mas eis que a mão daquele que vai me trair está com a minha sobre a mesa.

Pode parecer estranho, por causa da familiaridade do texto, porém toda a parte em destaque, desde “dado em favor de vocês”, até “derramado em favor de vocês”, é espúria. Nos manuscritos mais antigos, Jesus simplesmente diz “Isto é o meu corpo. Mas eis que a mão daquele que vai me trair está com a minha sobre a mesa.” Até a bíblia Nova Versão Internacional admite isso em suas notas de rodapé.

Uma adição como essas é muito mais fácil de explicar do que uma remoção. Por que um escriba removeria toda essa parte? Não faria sentido. A adição dela, pelo contrário, é bastante conveniente, já que pode ser usada contra os docentistas ao mostrar que Jesus de fato tinha corpo, tinha sangue, e foi derramado de verdade.

Outra curiosidade, essa adição além de tudo não representa o entendimento que o escritor de Lucas tinha a respeito da morte de Jesus. Por mais incrível que possa parecer, nunca, em nenhum outro lugar do livro de Lucas e Atos, é indicado que a morte de Jesus serve para perdoar os pecados. Inclusive onde essa indicação ocorre em Marcos (a fonte usada em Lucas), Lucas altera as palavras ou as elimina. Isso por si só já é assunto para outro tópico, mas quem quiser, compare Marcos 10: 45 com Lucas 22: 24-30  e Marcos 15:39 com Lucas 23: 47, só para ver alguns exemplos.  Lucas simplesmente interpretava a morte de Jesus de outra forma. Para ele, a morte de Jesus serve para fazer as pessoas reconhecerem a sua culpa perante deus (já que ele morreu mesmo sendo inocente). Assim que as pessoas reconhecerem seus pecados, elas se voltam para deus em arrependimento, e seus pecados são perdoados. Podemos ver essa interpretação, por exemplo, nos capítulos 3, 4 e 13 de Atos dos Apóstolos. Para Lucas, não é a morte de Cristo que traz a salvação, e sim o arrependimento pela culpa e o reconhecimento dos pecados.

Novamente, uma adição posterior provocada por uma interpretação diferente dos cristãos proto-ortodoxos destoou a intenção original do autor, e a motivação novamente foi para dar humanidade a Jesus Cristo, provavelmente para contrapor idéias docentistas.

Os lençóis que ficaram para trás

Outro verso que pode ter sido adicionado por cristãos proto-ortodoxos ocorre em Lucas 24: 12, logo após Jesus ser ressuscitado. Algumas mulheres seguidoras de Jesus foram ao sepulcro e, encontrando ele vazio, dois homens falaram que Jesus não estava mais lá, porque ressuscitou. Elas voltam para os discípulos, que não acreditaram, chamando suas histórias de “desvarios”. Então, em alguns manuscritos, encontra-se essa passagem:

Lucas,24:12Pedro, porém, levantando-se, correu ao sepulcro e, abaixando-se, viu só os lençóis ali postos; e retirou-se, admirando consigo aquele caso.

Novamente, esse verso não está presente nos manuscritos mais antigos. Novamente, ele possui palavras não usadas em nenhum outro lugar em Lucas (por exemplo, é usado outra palavra para “lençóis” em Lucas 23: 53). Novamente, é difícil explicar por que alguém removeria essa passagem. Agora, para acrescentá-la há justificativas plausíveis: demonstra que Jesus não era nenhum “fantasma”, que ele era de carne e osso, apoiando muito bem a causa anti-docentista dos cristãos proto-ortodoxos.

Elevado ao céu?

A última passagem que veremos nesse estudo encontra-se no final do livro de Lucas:

Lucas,24:50 E levou-os fora, até Betânia; e, levantando as suas mãos, os abençoou.
Lucas,24:51 E aconteceu que, abençoando-os ele, se apartou deles e foi elevado ao céu.

A parte final, “e foi elevado ao céu”, é uma inserção que se encontra em apenas alguns manuscritos antigos, inclusive em um dos melhores manuscritos que temos preservado até hoje, o Codex Sinaiticus. Essa é uma adição significante porque enfatiza a forma física de Jesus em sua ascensão aos céus, ao invés do insípido “se apartou deles”.

No entanto, é difícil acreditar essa passagem fazia parte do original escrito pelo autor de Lucas, já que ele também escreveu o livro de Atos dos Apóstolos, e nesse outro livro também há um relato da ascensão de Cristo, porém bem diferente... nele, Jesus subiu aos céus 40 dias após a ressurreição!

Será que o autor esqueceu o que escreveu no final de um livro, para se contradizer logo no início de outro? Certamente que não. Trata-se de uma adição posterior, com o intuito de enfatizar um ponto de vista específico, ou seja, uma adulteração do texto original com motivações teológicas anti-docentistas.

As gafes de Rick Santorum

O quadro eleitoral republicano vai de mal a pior. Não basta o fiasco do pré-candidato Rick Perry, e sua atrapalhada publicidade que gerou polêmica por ser extremamente homofóbica, Rick Santorum, seu concorrente na corrida eleitoral, também soltou várias gafes que mostram que ele não é apenas homofóbico, mas também racista, fanático religioso e ignorante (o perfil favorito dos republicanos, diga-se de passagem).

Separação entre igreja e estado: "Me deu vontade de vomitar"

Rick Santorum demonstrou sua ignorância e fanatismo ao falar que ao ler o discurso de J. F. Kennedy em 1960 sobre separação entre igreja e Estado deu-lhe vontade de vomitar.

"Dizer que as pessoas de fé não tem lugar em cargos públicos? Pode apostar que me dá
vontade de vomitar. Que tipo de país nós vivemos onde apenas pessoas sem religião
podem ir no congresso expor seus pontos de vista? Isso me faz vomitar, e deveria fazer
o mesmo com cada cidadão norte-americano" - Rick Santorum.

É claro que não foi nada disso que Kennedy disse, nem é isso o que significa a separação entre igreja e Estado. Primeiramente vamos ver o que JFK disse:

"Eu acredito em uma América que não é oficialmente nem católica, nem protestante,
nem judaica - onde nenhum funcionário público pede ou aceita instruções sobre
políticas públicas do papa, nem do Conselho Nacional das Igrejas, nem de nenhuma
outra fonte religiosa - onde nenhum corpo de religiosos busca impor sua vontade direta
ou indiretamente sobre a população em geral ou nos atos públicos dos seus representantes - e onde a liberdade religiosa é tão indivisível que um ato contra uma igreja é tratado
como um ato contra todas elas" - J. F. Kennedy.

É um discurso sem dúvida muito bonito e é difícil assimilar como é que Rick Santorum entendeu que "nenhuma religião pode impor sua vontade sobre o governo" significa "nenhum religioso pode ser funcionário público".

É muita ignorância, visto que o estado laico visa proteger as religiões - todas elas - de modo que não está sendo negado o direito das pessoas de fé de participarem do governo, está sim protegendo-as, fazendo com que nenhuma religião ou crença tenha privilégio sobre outra. O discurso de Kenedy explica bem que pessoas de todas as crenças devem ser bem vindas no governo - apenas não podem impor sua fé no resto da população. A falha de entender uma coisa tão simples como essa é comum nos religiosos, e Rick Santorum não é exceção.




Obama, um esnobe que quer que todos vão para a Universidade

Essa é fantástica:

"O presidente Obama disse certa vez que quer que todos nos EUA vão para a faculdade.
Mas que esnobe (aplausos). Vocês são pessoas boas e descentes, que trabalham duro todos os dias, e não são ensinados por nenhum professor liberal de universidade, que vai
tentar doutrinar vocês. (aplausos). Eu entendo por que ele quer que vocês vão à
faculdade: ele quer recriar vocês à imagem dele. Eu quero criar empregos para vocês
criarem os seus filhos à sua imagem, e não à dele (aplausos)." - Rick Santorum.

Eu sei que o que os políticos mais querem é manter o povo na ignorância, mas nenhum até hoje tinha tido a coragem de dizer isso abertamente! Isso apenas reflete o medo que essas pessoas tem do conhecimento. E o fato de ser aplaudido por isso ainda por cima é o pior de tudo! (Está explicado por que ele não conseguiu entender um texto simples como o discurso de Kennedy. Ignorância para certas pessoas é uma bênção.)




"Eu não quero melhorar a vida dos negros dando dinheiro de outras pessoas"

Pois é, em mais uma gafe feia, Rick Santorum deixa escapar o seu racismo em uma declaração que repercutiu muito mal em todo o país:

"Eu não quero melhorar a vida dos negros dando dinheiro de outras pessoas. Eu quero dar a oportunidade de fazê-los merecer o dinheiro" - Rick Santorum.

Essa frase provocou tanta polêmica porque ninguém perguntou a ele sobre negros. Perguntaram sobre as políticas de assistência social, sem mencionar a etnia de ninguém. Foi Rick Santorum que assumiu que se tratava de negros. O motivo é simples: na cabeça racista dele, só mesmo os negros que precisam de ajuda assistencial, e Rick praticamente insinua que estão pegando o dinheiro de outras pessoas, ou seja, "esses negros ficam ganhando dinheiro às custas do trabalho dos brancos"!

Rick desconhece, no entanto, que no seu estado de Iowa, 84% das pessoas que recebem "stamp food", uma espécie de vale alimentação do governo para conseguirem se alimentar, não são negros.

E o pior de tudo foi que ele, depois de feita a merda toda, ainda tenta consertar, o que como bem sabemos sempre estraga mais ainda. Segundo ele, ele afirma categoricamente que não disse "black people" (apesar de escutarmos claramente no vídeo abaixo), e sim que ia dizer uma palavra, mudou de idéia no meio, e acabou saindo "blaghlaha". Mas não era, em hipótese alguma, "black people". De jeito nenhum!

Oras, se falou merda, pelo menos tenha a hombridade de admitir! Diga que sim, se enganou, que não são apenas negros que fazem uso dos programas assistenciais. Porra, seria muito mais admirado se fosse honesto consigo mesmo e com os outros. Mas não, precisa ser sempre arrogante e orgulhos, e nunca admitir que errou. São os requisitos obrigatórios de um conservador!




Poderia por gentileza deixar de ser gay?

Falando sobre o assunto dos gays servindo no exército, no qual Rick é obviamente contra, deixou clara sua esperada homofobia quando entrevistado no canal da Fox.

Primeiro ele alega que atividades sexuais não tem lugar no exército, e não pode dar privilégios especiais aos gays, mas quando o repórter diz que sexo heterossexual existe há séculos entre os militares sem problema algum, ele deixou claro que se referia somente ao sexo homossexual (como é que os gays ganham privilégios especiais por ganhar os mesmos direitos que os heterossexuais já possuem há séculos é algo que se encontra além da minha capacidade de compreensão).

Em seguida, o repórter jogou uma armadilha na qual Rick Santorum caiu como um patinho: ao falar que os gays poderiam atrapalhar, tirar a concentração, diminuir a eficiência dos soldados, não se deve injetar políticas no exército, etc, foi mostrada a seguinte frase, e perguntado se Santorum concordava ou não com ela:

"O exército não é um laboratório social. Experimentar com políticas sociais no exército, especialmente em tempos de guerra, significa um perigo para a eficiência, disciplina e moral que podem resultar em uma derrota" - Coronel Eugene Householder

Ao dizer que sim, em linhas gerais ele concordava com a frase, foi dito que ela pertencia ao coronel Eugene Householder, em 1941, contra a integração dos negros no exército. Ele usava exatamente os mesmos argumentos.

Rick então passou a dizer que são situações diferentes: um negro não pode deixar de ser negro, enquanto um homossexual pode (?) deixar de ser homossexual.

"A idéia de que isso é de alguma forma equivalente ser negro e ser gay, simplesmente não é verdade. Existem vários estudos que sugerem exatamente o contrário, que eram gays, e viviam o estilo de vida gay, e agora não são mais" - Rick Santorum. 

É isso aí, para Rick Santorum, ser gay ou ser hetero é como ligar ou desligar um botãozinho, onde a pessoa pode escolher o que quer ser. Então tá, hoje eu vou ser gay, amanhã eu vou ser hetero. ¬¬



Pois é, pacote completo. Não precisamos nem perguntar o que ele pensa a respeito de outros assuntos, tal como criacionismo, aborto, orações nas escolas públicas, etc. E eu pensando que não haveria nenhum candidato mais toupeira que a Sarah Palin!

Só essas frase fez o medidor de vergonha alheia quebrar aqui, mas se tiver alguma outra eu vou atualizar a postagem. Tenho certeza que ainda vai vir mais pérolas por aí!

Update: "Obama, aquele pret... ugh... o que eu dizia mesmo?"

 Não falei? Rick Santorum deixou escapar um deslize quase freudiano ao falar o que pensa sobre Obama, ao chamá-lo de "nigger", o equivalente a "preto" aqui no Brasil. Ele não chegou a terminar a frase, percebendo o que ia dizer. Mas vê-se claramente que era isso que ele ia falar; não existem outras palavras que começam com "nig" que fariam sentido!

"Todos nós sabemos como era o candidato Barak Obama,  o governo anti-guerra daquele pret... - ugh - uma fonte de divisões..." - Rick Santorum



Talvez ele não tenha tido intensão de de chamá-lo de "nigger", mas é claro que é o que ele ia dizer. Provavelmente ele deve usar essa terminologia no seu dia-a-dia, nas rodinhas de amigos, como os racistas costumam fazer...

sábado, 31 de março de 2012

‎"Ele matou meu pai, cara, o que que você quer que eu faça?"

Acho importante compartilhar, para que a memória daqueles que desapareceram não seja esquecida.



Nunca poderemos esquecer, nem devemos perdoar. Eu não anistiei ninguém.

Maradona FTW!!

Só mesmo os islâmicos para me fazer admirar o Maradona.

Durante o jogo Shabab x Wasl alguns homens começaram a agredir sua esposa, ao que ele prontamente foi dar de dedo na cara deles:



Não se sabe ao certo o motivo da confusão, se foi apenas por ela ser mulher, ou por não estar usando a roupa adequada aos costumes tradicionais. Mas sabe-se que o motivo é a misoginia típica da cultura islâmica.

Em entrevista após o jogo, Maradona disse claramente: "Se um homem agride uma mulher, é um covarde. É um covarde porque ele não tem culhões de enfrentar um homem". O repórter claramente se indignou com a resposta, mas Maradona não recuou: "Fiz e faria de novo. E se você estivesse lá, também faria com você. Se faltar com o respeito à minha mulher, vou te buscar na sua casa. NA SUA CASA!"

Boa, Maradona!

sexta-feira, 30 de março de 2012

Adulterações das Escrituras por Motivos Teológicos - I


Durante o segundo e terceiro séculos da era comum – aproximadamente no tempo em que estavam sendo escritos os últimos livros que ainda formariam o que chamamos hoje de Novo Testamento – havia uma particularmente rica diversidade teológica entre os primeiros cristãos.

Na verdade, essa diversidade era tão grande que muitos dos que se consideravam cristãos naquela época jamais seriam chamados cristãos hoje.

Durante essa época, além dos cristãos que acreditavam que havia um único deus, criador de tudo, também havia cristãos que acreditavam na existência de dois deuses, o deus do Antigo Testamento, o deus de Israel, o deus da ira, da guerra e da vingança, e o deus do Novo Testamento, o deus de Jesus, do amor, da paz e do perdão. O maior representante desse tipo de cristianismo chamava-se Marcion, uma figura importante que veremos com mais detalhes a seguir. Além disso, havia os cristãos gnósticos que acreditavam na existência de 12 deuses. Outros diziam ser 30. Outros ainda, 365.

Alguns desses grupos acreditavam, como os cristãos de hoje, que Jesus era 100% humano e 100% deus. Outros, que Jesus era 100% homem e 0% deus, mais ou menos como as Testemunhas de Jeová. Outros ainda achavam que Jesus era 0% humano e 100% divino. Existiam ainda aqueles que tinham a curiosa crença de que Jesus Cristo era composto por duas entidades distintas que dividiam o mesmo corpo: o humano Jesus e o divino Cristo.

Alguns grupos achavam que a morte de Jesus era o único caminho para a salvação. Outros, que a morte de Jesus não tinha nada a ver com salvação alguma. E outros ainda achavam que Jesus nem mesmo tinha morrido.

Enfim, havia uma profusão de crenças totalmente distintas, cada uma considerando a si próprio o verdadeiro e único cristianismo tal como foi ensinado por Jesus Cristo, enquanto todas as outras não passavam de heresias, deturpações.

Alguém pode se perguntar: Por que simplesmente não liam o Novo Testamento e tiravam as dúvidas? Oras, acontece que ainda não havia Novo Testamento. Para falar a verdade, alguns dos livros que compõem o NT nem haviam sido escritos ainda, além de que haviam muitos outros livros que jamais entraram na bíblia, mas que na época eram considerados escritos originais dos apóstolos: outros evangelhos (como o evangelho de Paulo, Pedro, Maria, Judas, e até Jesus), atos (como os atos de Paulo, atos de Pedro), cartas (como III Coríntios), e apocalipses, muito diferentes dos que conhecemos agora.

Cada grupo escolhia os livros que considerava originais – e muitas vezes deturpavam ou fraudavam completamente os textos de acordo com seus propósitos. Não havia um acordo universal até o concílio de Nicéia. Mas, até lá, era cada um por si.

O primeiro cristão que temos registro que fez uma tentativa de reunir um cânon oficial foi Marcion, de quem falamos antes. Mas sua “bíblia” era bem diferente da que conhecemos hoje. Como para ele o deus do Antigo Testamento era um deus de ódio e vingança, ele era considerado um deus menor, inferior, e, portanto, não era o deus verdadeiro. Por isso, nenhum dos livros do AT foram incluídos. Marcion considerava também apenas Paulo como o verdadeiro discípulo de Jesus. Todos os outros discípulos, segundo ele, não entenderam a mensagem verdadeira de Cristo. Assim, em seu cânon, Marcion incluiu apenas as 10 cartas de Paulo que tinha à disposição, ou seja, todas as do Novo Testamento menos I e II Timóteo, e Tito. Marcion incluiu também apenas um evangelho, uma versão alterada de Lucas. E era isso, essa era a sua bíblia.

Marcion, como muitos daquela época, não hesitou em alterar as partes de sua bíblia que considerava erradas. Assim, ele acomodava suas escrituras de acordo com suas crenças.

Será que essa prática também foi usada nos livros que hoje compões a bíblia oficial? Certamente que sim. Não apenas Marcion, mas também aqueles outros cristianismos diferentes eram uma ameaça constante ao “verdadeiro cristianismo”, e assim as partes das escrituras que pareciam apoiar as idéias de Marcion, dos gnósticos, e dos outros eram alteradas pelos escribas. Sabemos disso porque essas alterações não estão presentes nos manuscritos mais antigos. E, analisando criticamente o contexto histórico, entendemos por que elas foram alteradas.

Nas próximas partes desse estudo veremos algumas passagens que os estudiosos consideram adulterações das escrituras mais antigas para enfraquecer os pontos de vista contrários e fortalecer os seus, ou seja, adulterações por motivações teológicas.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Mememania!