A natureza não é cruel, apenas implacavelmente indiferente. Esta é uma das lições mais duras que os humanos têm de aprender. (Richard Dawkins)

sábado, 26 de novembro de 2011

Johannine Comma: outra adição posterior

Uma das mais importantes passagens da bíblia, em I João 5: 7-8 - popularmente conhecida como Johannine Comma - também é considerada pelos estudiosos uma inserção posterior:

I João 5, 7 Pois há três que dão testemunho no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um


I João 5, 8 E três são que os testificam na terra: o Espírito, a água e o sangue, e os três são unânimes num só propósito.

A parte em destaque "no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um. E três são os que testificam na terra" não aparece na vasta maioria dos manuscritos gregos (na verdade, só aparece naqueles produzidos na idade média). Os manuscritos mais antigos que contém a passagem constam apenas na Vulgata Latina, e ainda assim só após o oitavo século da era comum.

Parte do Codex Sinaiticus, um dos mais importantes manuscritos existentes.  A parte em destaque é I João 5: 7-8, sem o Johannine Comma. A letra miúda é uma correção de um erro feita por um escriba.

Essa passagem é uma das favoritas entre os cristãos, pois é a única em toda a bíblia que fala explicitamente sobre a doutrina da Trindade, isto é, que existem três pessoas que formam a divindade. Sem ela, é necessário inferir indiretamente utilizando passagens diversas que mostrem que Cristo é Deus, assim como o Pai e o Espírito Santo, e que, ainda assim, há apenas um único Deus.

Mas é consenso geral que essa passagem é considerada espúria. Na maioria das bíblias modernas ela está entre colchetes, com notas de rodapé informando que não consta nos manuscritos mais antigos. A Nova Versão Internacional foi ainda mais longe, tomou coragem e eliminou completamente o trecho duvidoso:

I João 5, 7 Pois há três que dão testemunho:


I João 5, 8  o Espírito, a água e o sangue, e os três são unânimes.


Vemos que o que resta dos versículos até poderia ser interpretado como a trindade, mas fica obscuro demais para ter certeza (provavelmente por isso que o Johannine Comma foi adicionado, para esclarecer melhor uma interpretação particular feita pelos escribas).

De qualquer forma, essa passagem só permanece nas bíblias por tradição. Erasmus, o autor da primeira versão da bíblia impressa já feita, em 1516, não encontrou nenhum manuscrito grego que tivesse o Johannine Comma, e por isso o deixou de fora. Isso irritou os teólogos de sua época, que o acusavam de adulterar o texto para eliminar a doutrina da trindade e atacar a divindade de Cristo (mais ou menos como os evangélicos fundamentalistas de hoje acusam a NIV de fazer o mesmo). Stunica, que planejava sua própria versão da bíblia, fazia difamações públicas contra Erasmus e exigia que a passagem fosse incluída nas versões seguintes.

Erasmus, ingenuamente, disse que incluiria a passagem com uma condição: que seus opositores lhe apresentassem um manuscrito em grego que contivesse a passagem. E um manuscrito foi apresentado (produzido especialmente para a ocasião, diga-se de passagem, copiado do grego, com a parte do Johannine Comma traduzido do latin).

Erasmus não teve outra escolha a não ser manter a palavra e incluir o versículo nas versões posteriores, com base em um manuscrito feito especialmente para a ocasião no século XVI, e essa versão foi a base para o Novo Testamento que foi eventualmente usado na versão King James.

Isso mostra como era o comprometimento e o caráter daqueles que copiavam e mantinham os manuscritos ditos sagrados, que não tinham nenhum escrúpulo para alterar os textos de acordo com as suas vontades, seus interesses e suas crenças pessoais.